Continho

Neto circula com a viatura pelas ruas pouco iluminadas de um bairro residencial da cidade. No banco do passageiro, Alegretti mata o tédio brincando com joguinhos no smartphone.

– Vamos agitar esse negócio? – Neto propõe.

– Quer fazer o quê? – Alegretti levanta os olhos do aparelho.

– Me aguarde. Mas precisamos de um balde.

No posto conseguem um balde emprestado, o que intrigou os dois frentistas. Se tivesse pensando nisso antes poderia ter trazido um balde junto, escondido do quartel. Enchido o balde, ajustou-o atrás do banco do motorista e voltaram a rodar pelas ruas do bairro.

Ao chegar a uma esquina encostou o carro. Sob a marquise de um prédio de dois andares, na face lateral onde não havia portas – árvores com muitos galhos deixavam o local na penumbra – um volume de panos jazia sobre um colchão sem capa.

Neto pegou o balde. Caminhando com passos firmes, chegou no volume de trapos e puxou as cobertas, deixando o sujeito que ali dormia ao relento. A pobre figura mal teve tempo de entender o que acontecia, quando deu por si o balde já estava sendo despejado sobre o seu peito, empapando o colchão.

– Acorda, vagabundo! – Deu-lhe um chute nas costas – Levanta, porra!

Alegretti, sem sair do carro, com a janela aberta, viu um homem, um jovem adulto, trinta, trinta e cinco anos, aparentando quarenta, que parecia ter acordado para dentro de um pesadelo.

– Cai fora. Pega as tuas coisas e se manda. Aqui não é lugar pra dormir.

Alegretti exibiu um sorriso que endureceu na mandíbula. O homem juntou suas coisas molhadas, as jogou dentro de um carrinho de supermercado e saiu arrastando-se para dentro da noite.

– Dei um susto naquele vagabundo, agora ele vai se espertar. – Neto jogou o balde para trás do banco e voltou ao seu lugar de motorista.

– Não precisava fazer isso. O cara devia estar quentinho ali.

– Alguém tem que espertar esse povo. O governo só fica dando de comer, não ensina a pescar. Bando de vagabundos.

– Sei lá, cara, essas pessoas têm problemas pra burro. Acho que ninguém está na rua porque quer. Acho que tem gente que não dá certo, que só a religião mesmo pra dar um jeito.

– Se o cara quer dá um jeito. Não dá pra ficar a vida inteira dependendo de esmola da família ou do governo.

– Sei lá, meu… sei lá.

A discussão encerrou-se ali, como se tacitamente ambos tivessem decidido não levar adiante aquele debate, sob risco de entrarem em divergência e terem que passar o resto da noite numa situação desconfortável.

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Essa cena é pedaço de um conto maior no qual venho trabalhando.

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