Parando de fumar

“Eu podia fumar sem escrever, sem problemas, mas não podia escrever sem fumar” Alejandro Zambra. (leia a crônica completa)

Eu cheguei a essa crônica lindíssima do Alejandro Zambra via meu amigo Caio, também um eterno ex-fumante. Talvez o vício do cigarro seja como as ex-mulheres, aquelas coisas onipresentes e desagradáveis, cuja lembrança é misto de nostalgia e desprezo. Sabemos que era bom, mas os efeitos colaterais é que nos fizeram largar.

Ainda hei de escrever uma História do Cigarro, como a trilogia das Histórias (do cabelo, do pranto e do dinheiro) de Alan Pauls. Porque esse pequeno bastão de fumo com filtro era a única hipótese de rebeldia que eu me permiti pela primeira vez na vida. Eu era um boca-aberta, e certamente sou ainda; fumar era o que poderia me deixar mais legal e não ser apenas mais um nerd de camiseta bem passada para dentro das calças. Além do mais, 90% dos meus amigos fumavam.

Comecei a fumar com 15 anos. E sempre foi algo clandestino, pois se meu pai soubesse o drama seria imenso. Tragédias de dimensões homéricas aconteciam lá em casa por chinelos fora do lugar e louça suja na pia. Essa aura de proibido ruiu quando com 17 anos ele me pegou fumando em casa, outro passo ousado que felizmente teve como consequência maior um sermão e um tempo de castigo.

E daí que o cigarro sempre teve essa dimensão de transgressão pra mim. Quando comecei a escrever aos 17 anos, lendo Pessoa, e depois chegando aos beatniks, o cigarro ganhou essa aura de poder, como mais uma transgressão, agora contra o bom-mocismo, a geração saúde, o politicamente correto.

Agora, aos 32 anos, uns 14 anos de fumo, com algumas interrupções aí no meio, me vejo com a necessidade de parar de fumar: minha mulher está grávida. Pensando bem, agora as decisões que tomo não envolvem apenas a mim, envolvem uma terceira pessoa que não precisa vir a um mundo com cheiro de cinzeiro. O problema é redefinir toda a minha vida: o que farei nos intervalos do trabalho? Que prazer terá o café depois do almoço? Haverá prazer no café solitário, sem seu irmão assassino? O que vou fazer quando, depois de uma ou duas horas de teclado eu precisar parar para relaxar: fazer flexões ou abdominais? Não. Comer uma fruta? Pode ser, mas eu costumava comer uma fruta e fumar um cigarro depois disso. Comer um chocolate? Idem. Dedilhar ao violão até que a vontade passe? Hummm, quem sabe. Só sei de uma coisa, a vida ficou esquisita.

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