Escrita, escritor e leitor

Tenho lido a coletânea de pequenas crônicas do Luís Augusto Fischer reunidas em Filosofia Mínima: ler, escrever, ensinar e aprender e me deparei com um trecho (da parte sobre escrever) que gostaria de compartilhar com vocês (embora eu não saiba exatamente quem é meu leitor comum, já que comumente quem passa por aqui e dá um oi são os amigos).

“Talvez o texto ideal, no sentido dessa pequena filosofia, seja como o jejum do personagem do conto “Um artista da fome”, de Franz Kafka: escrever como aquele cara precisava jejuar, com aquela gana, se possível sem jamais parar (mas ao mesmo tempo sabendo que há um limite para o jejum, a morte). Jejuar, escrever, não para agradar, mas para atingir o ponto máximo de sua verdade pessoal, mesmo que ao custo da vida, isso é um ideal que vale a pena.” (p. 138)

Por que eu gostei desse trecho? Provavelmente porque nos últimos seis meses tenho escrito praticamente todo dia (mesmo que umas poucas páginas) e mesmo quando não sento sistematicamente para escrever as histórias habitam em mim e me perturbam. Talvez é isso que tenha me movido a escrever, essa perturbação interior, essa necessidade de comunicação que um simples bate-papo com alguém não satisfaz. E dedicar tempo e energia a isso sistematicamente tem sido muito mais do que aquele mero exercício de sentar e colocar sentimentos e impressões no papel, coisas que eu fazia há 15 anos atrás. Li esses dias um caderno velho de anotações e me deparei comigo mesmo perdido, tendo anotado que estava sem rumo, não sabia que direção dar aos meus textos. Eu recomendava a mim mesmo ler mais teoria literária. (Ri sozinho agora porque lembrei que foi exatamente um livro sobre ensino escolar da escrita que me deu a chave toda, o Da redação à produção textual do Paulo Guedes). Afinal, pelo que entendo, a teoria literária está preocupada com o ‘produto’, digamos assim, de dar uma leitura para o objeto pronto, quando o que o escritor jovem precisa na verdade é entender o ‘processo’, as dinâmicas da construção.

E aproveito o ensejo para corrigir a minha leitura do Autran Dourado, o que fiz no post anterior. Claro que ele fala de enredo. O problema todo do romance é o personagem. Sem personagem não existe ficção; e o enredo é fruto disso, do que o personagem quer, dos seus dilemas, das suas angústias, das suas relações, etc.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s