Como a linguagem perpetua desigualdades

size_590_livrodidaticoUma apostila resolveu usar como ilustração de exemplos de atração e repulsa (conceitos da física) os desenhos de meninos e meninas. Se alguém se ofendeu com isso é porque algo tem de errado com a ilustração. A leitura é claramente autorizada, usar dois meninos como símbolo de repulsa implica em muitas coisas, mesmo que seja em um livro inocente. Aí é que está o problema, o quão inocente é o livro? O quão inocentes somos quando dizemos coisas do tipo ‘não era essa a minha intenção’? É nesse terreno que a ideologia age, no terreno das ações de linguagem que executamos, e das quais não tomamos consciência, como o pastor Feliciano, que considera a homossexualidade uma aberração e que não se considera homofóbico. Acho que ele não sabe que ofender um grupo de pessoas é praticamente a mesma coisa que alimentar o sentimento coletivo de desprezo por esse grupo. Ainda mais vindo dele, um líder religioso, capaz de influenciar o comportamento de muitas pessoas.

Foi o pensador russo Mikhail Bakhtin um dos primeiros a apontar a relevância do estudo das relações entre linguagem e ideologia, argumentando que a luta de classes se dá no terreno dos signos (cf. Marxismo e Filosofia da Linguagem). Se ele está certo, e todo o pensamento linguístico e filosófico que veio a partir dessas ideias, é justamente no nosso comportamento linguístico que se manifesta a ideologia. Malafaia, Feliciano e Bolsonaro podem não sair por aí batendo em homossexuais, mas as coisas que eles falam legitima essa prática. Lembro quando a união civil entre pessoas do mesmo sexo foi considerada legal pelo Supremo Tribunal Federal. Reinaldo Azevedo esbravejava que a constituição tinha sido rasgada. Os direitos dos cidadãos que pagam impostos, contribuem para a sociedade como qualquer outro casal, não são legítimos porque a constituição fala em ‘homem e mulher’. Vai ver a constituição precisa ser modernizada, não? As leis precisam se ajustar aos avanços da sociedade, e não a sociedade se ajustar aos desígnios de leis escritas há mais de cinquenta anos. Até bem pouco tempo o marido poderia matar a mulher e o amante para defender a sua honra, se os pegasse em flagrante.

A luta ideológica se revela no uso de expressões que os grupos usam: ‘homossexualismo’ x ‘homossexualidade’; ‘direitos’ x ‘privilégios’;  ‘a ditadura gay’; ‘orgulho hétero’ x ‘orgulho gay’; ‘gayzista’ etc.

Os termos ‘homossexualismo’ e ‘homossexualidade’ se opõem porque o primeiro denota um comportamento, uma opção ou escolha, e os grupos que usam esse termo o consideram algo ruim, que precisa ser combatido; o termo ‘homossexualidade’ é usado por grupos que consideram a relação entre pessoas do mesmo sexo algo natural. Claro que o debate entre ‘nature’ e ‘nurture’ é importante nesse caso, mas ele se estende por todo o raio de atividades humanas (linguagem, personalidade, caráter, moralidade, ética etc.). Logo, não é exclusivo em relação à sexualidade (cf. por exemplo o ótimo Tábula Rasa de Steven Pinker) Uma mesma pessoa pode acreditar no ditado ‘filho de peixe, peixinho é’ e ao mesmo tempo defender que se muda a personalidade de uma pessoa na base do cacete. Provavelmente essas coisas sejam complementares. Só que a opção por um dos termos revela muito sobre de que lado a pessoa está do debate, mesmo que ela não tenha consciência disso.

É estranho falar em ‘privilégios’ dos gays quando na prática eles são tratados como sujeitos de segunda classe na sociedade: seus parceiros não tinham direitos (até pouco tempo), não podem demonstrar afeto publicamente (se você sente nojo ao ver dois homens se beijando, talvez o problema esteja em você, não neles), e ainda correm o risco de serem espancados por grupos de jovens imbecis apenas por serem o que são. Nesse sentido, criminalizar a homofobia apenas reconhece institucionalmente (e logo, gera estatísticas) um crime bastante comum. Veja o caso da Lei Maria da Penha. Ela foi um avanço porque criou condições institucionais para que as mulheres possam ter amparo do estado quando vítimas de violência doméstica. Há inúmeros relatos de mulheres vítimas de abuso pelos companheiros ou estupro que eram maltratadas por policiais homens, que não levavam a sério suas queixas (não lembro das fontes, mas é só ler o blogue da Lola, lá tem centenas de relatos desse tipo). A tendência masculina é considerar a mulher culpada. A máxima rodriguiana, “toda mulher gosta de apanhar, só as neuróticas reagem.” é bonita na literatura, não na vida real. Assim, tornar um crime específico a violência contra homossexuais poderá mostrar pra sociedade a sua face, aquilo que ela quer esconder, que muitos filhos de família saem nas ruas para espancar pessoas que possuem um comportamento sexual diferente. Chamar o diferente de “aberração” só reforça a desumanização do objeto de desprezo, causando antipatia, o que cria condições para a violência. Não é a toa que na Alemanha nazista os judeus eram comparados aos ratos, como criaturas sujas, como uma praga (cf. o documentário Arquitetura da Destruição).

As expressões ‘orgulho gay’ x ‘orgulho hétero’ também são relevantes nesse contexto, pois trazem consigo diferentes cargas ideológicas. A necessidade dos indivíduos expressarem o seu orgulho por serem o que são é justificável por tudo que eles sofrem no cotidiano. No belo documentário “For the Bible tells me so” um dos pais dos jovens retratados diz que não pensa que a homossexualidade do seu filho seja uma escolha, afinal, ninguém escolheria passar por tudo o que ele passou e passa diariamente. Assim, ter orgulho de ser hétero é no mínimo uma redundância. Héteros, brancos, e homens não são vítimas de nada, muito pelo contrário. É justamente esse grupo que se revolta com a ‘ditadura gay’, termo geralmente usado por quem não sabe o que uma ditadura é. Não vejo como a luta por direitos e aceitação seja ditatorial. Até porque, se fosse esse o caso, sujeitos como o Reinaldo Azevedo e o Luiz Pondé, pra citar dois exemplos, não teriam o espaço na imprensa que têm se de fato vivêssemos em uma ditadura. A unidade de pensamento é que seria uma chatice. Vai ver o ego deles não suporta críticas. E aqui entra outro ponto fundamental: a aceitação. Homens brancos héteros não precisam lutar para serem aceitos, pois eles são a maioria, são eles que detêm posições de comando na sociedade, são eles que ditam as regras. Por isso a expressão ‘orgulho hétero’ é tão tosca, mas imensamente carregada de sentidos e implicações. A luta dos religiosos e outras pessoas contra a criminalização da homofobia reside justamente na não aceitação. Ao se criminalizar o ódio aos homossexuais, eles perdem a liberdade de semear o preconceito e a intolerância.

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