Sobre histórias e objetos

Aproveitando que as aulas só começam em março, tenho usado esse tempo sem muitas obrigações profissionais pra escrever. Estou quase terminando um conjunto de crônicas da minha adolescência, batizado por enquanto de “o que você vai ser quando você crescer”, que é um verso de Pais e Filhos da Legião (ou ‘do’ Legião? eu nunca sei) – cantávamos essa música a plenos pulmões quando voltávamos bêbados para casa lá pelos idos de 1996. Ainda não estou contente com a forma da coisa e preciso acrescentar alguns detalhes históricos, que vão demandar pesquisa e reler alguns trechos de “Diário de um Mago” do Paulo Coelho. Sim, eu lia um bocado e velho bruxo, ou vocês acham que a gente lia Joyce e Clarice Lispector aos 15 anos? A gente era supernormal, e talvez esteja aí a graça do livro, a sua universalidade, ou mesmo o seu principal defeito, porque as coisas que eu e meus amigos fizemos são comuns, ou não… pensando bem, acho que escrevi o meu “Alta Fidelidade”, mas sem a Catherine Zeta-Jones, ou as músicas do Elvis Costello. Eu era fã do AC/DC, nada mais comum que isso. Veremos o que meus dois primeiros leitores dirão.

Mudando de saco para mala, um amigo meu teve um insight que tem me incomodado, e que se a gente para pra pensar com cuidado… sei lá, não dá pra chegar a nenhuma conclusão… Ele estava na casa da sua avó e de repente percebeu que as coisas da sua tia, que havia falecido há pouco menos de um ano, estavam todas jogadas em um quarto da casa. Ele mesmo, um sujeito que gosta de colecionar artigos vintage (eletrônicos, principalmente) de repente percebeu que a nossa vida pode se resumir a isso. No final, tudo que a gente fez na vida foi juntar um monte de coisas que serão jogadas num quarto velho da casa de alguém, até que tenham um destino definitivo: sejam distribuídas entre parentes, vendidas a um brique-braque, dadas para quem quiser levar. Ele se lembra do que aconteceu com o avô do Caio, o Amadeu Bona, um pintor bastante conhecido em Porto União da Vitória e região. Quando ele faleceu, todos aqueles objetos pelos quais ele nutria paixão e apreço foram dispersados. E ele contou, tristemente, que quando visitou uma exposição em homenagem ao pintor, notou que o atelier que montaram na exposição não tinha nada a ver com o atelier original do pintor. Faltavam o seu toca-discos e seus vinis do Orlando Silva, o seu cavalete, o seu banquinho, entre outras coisas. Aquilo que estava montado ali era um engodo, um cenário fake. Talvez venha daí a nossa fascinação por museus, casas de artistas. É o prazer de conhecer o ambiente de trabalho, os objetos que também contam a história daquele ser humano que construiu coisas bonitas. Quando visitei Mariana (MG) fui na casa do poeta simbolista Alphonsus de Guimarães. Ele viveu lá de 1906 até a sua morte em 1921. A casa é pequena,  4 quartos, se não me engano. Não sei como todos os seus 15 filhos cabiam lá dentro. De qualquer forma, não há mobília nos quartos, e no térreo, no que devia ser a sala, há alguns poucos móveis e objetos expostos, tais como primeiras edições de seus livros e manuscritos. A originalidade do lugar perdeu-se. É apenas uma casa onde viveu um sujeito que escreveu belos poemas, os objetos que circundaram aquela existência, deram algum sentido para a vida dele e da família se perderam. Daí a gente pensa na quantidade de coisas que compra, nos objetos aos quais se apega por alguma razão, como o preto velho que eu trouxe de Ouro Preto, o filtro de sonho que comprei em uma feirinha em Floripa, o meu toca-disco, os livros que garimpei em sebos (um livro de poemas do Lindolf Bell autografado!; A obra completa do Fernando Pessoa em um volume; o X-Bar Syntax do Jackendoff que eu comprei numa liquidação da biblioteca da Universidade de Chicago), meu pôster do Pulp Fiction… são apenas coisas, alguém dirá. Por mais que a gente fica com esse sentimento de que em algum momento alguém irá jogar aquilo tudo fora (seus filhos, aqueles ingratos!), de certa forma os objetos que a gente guarda possuem um apelo sentimental, são coisas que tornam a nossa existência também singular, pois os objetos possuem memória, da viagem inesquecível, daquele romance fugaz que durou duas noites de sexo, das coisas que te inspiram a passar a vida de forma menos bovina e mais produtiva.

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2 comentários sobre “Sobre histórias e objetos

  1. gostei do post, cara… curiosamente, antes de lê-lo, eu estava aqui lidando com alfarrábios, críticas esquecidas de João Itiberê da Cunha, publicadas no Correio da Manhã. Coisas esquecidas, cacos da história. Nossa vida é um pouco isso, um amontoado de coisas que não servem para nada, mas pelas quais nutrimos uma estranha paixão. Aos poucos, nossa vida vai virando um Museu Imaginário

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