Linguística para Leigos

Estou lendo “Foundations of Language” do Ray Jackendoff e logo no primeiro capítulo o autor desabafa a sua dificuldade, melhor dizendo, a dificuldade da área como um todo, de se comunicar com um público mais amplo (cientistas, filósofos, público em geral). Para ele, os tempos áureos dos anos 60, quando as pessoas liam o que os linguistas escreviam, passou, e a culpa é nossa. Ele cita dois casos que ilustram bem isso – qualquer linguista que tenha tentado explicar a algum parente no Natal sobre o que é a sua tese sabe como é essa sensação. Primeiro, quando você diz que estuda linguagem, o comentário clássico é “Como é difícil aprender Russo, né?!”. Segundo, “Estão destruindo o português culto, ninguém mais fala certo. Você viu o caso do livro de português que ensinava errado?”. Estou adaptando o segundo exemplo, que é exatamente o mesmo caso citado por Jackendoff. Uma comunidade no interior dos Estados Unidos decidiu valorizar na escola o dialeto local e provocou escândalo nacional. Mas será que o leigo precisa saber sobre como as línguas humanas funcionam?

Ninguém nega que as crianças precisam saber o que é um mamífero, um réptil, um inseto, uma ave, embora ninguém saiba direito para quê serve esse conhecimento (passar no vestibular?). Mario Perini (na sua Gramática do Português Brasileiro, ou no Sofrendo a Gramática) argumenta que se ensina português por questões culturais. Historicamente, o ensino de língua portuguesa envolvia  a leitura dos clássicos, a gramática, e a escrita. Hoje não é muito diferente, embora tenhamos avançado um pouco na didática da matéria. Veja que ensinar, digamos ‘classes de palavras’, por razões históricas não é exatamente um bom argumento. Há cinquenta anos se ensinava latim, e se fazia as crianças decorar as declinações; caso errassem poderiam ser castigadas, humilhadas publicamente. Hoje não vemos mais esse tipo de prática como aceitável. Por que, então, saber o que é uma preposição é relevante? Aqui eu preciso concordar com Perini, à parte todo esse papo de que ensinar gramática é importante (não sabemos exatamente o porquê), para quem poderíamos usar o ensino de gramática como mais uma forma de se ensinar pensamento científico, possibilitar que as crianças pratiquem o método das ciências naturais, mesmo que rudimentarmente. Você deve estar se perguntando, o que isso tem a ver com ensinar o leigo sobre linguagem? Tudo.

A educação formal passa pela escola. Muitas vezes não temos consciência da necessidade de aprender o catatau de coisas que aprendemos lá, além de servir para passar no vestibular. É um uso instrumental. Não percebemos que saber como funciona a velocidade, a gravidade, a geometria, o ciclo da água, etc. são coisas que nos ajudam a entender como o mundo a nossa volta funciona, porque as coisas acontecem da forma que acontecem; para que, essencialmente, saibamos dar as respostas racionais que foram dadas para explicar os fenômenos naturais; um relâmpago é um fenômeno elétrico, não a fúria de um deus raivoso. Uma enchente não é um deus nos castigando pelos nossos pecados. Com a linguagem deveria ser a mesma coisa. Alguns colegas dirão que já temos que ensinar a ler, a escrever, a ler e conhecer a literatura brasileira e portuguesa e a falar em público; ensinar a fazer ciência outras disciplinas fazem. Eu discordo dessa visão. Se temos que ensinar todas essas coisas, e digamos que ensinar gramática seja um componente do “escrever bem” (embora escrever bem não seja apenas escrever com correção gramatical), esse ensino não deve ser na base do “é assim porque é assim”, deve possibilitar que os alunos percebam a lógica (ou a falta dela) por detrás das classificações; perceber que a fala e escrita são coisas diferentes (e ao contrário do senso comum, não escrevemos como falamos, nem temos que falar como escrevemos), para se chegar a essa conclusão basta fazer o que os cientistas naturais fazem: observar o comportamento dos indivíduos sujeitos da pesquisa; por que é difícil aprender russo se um russinho de 3 anos conseguem falar a sua língua materna tão bem? Por que surgem coisas como “menas gente”, “preferir mais”, “subir pra cima”, “entrar pra dentro”? Por que elas são “erradas” se uma boa parte da população fala assim?

O que eu quero dizer, em essência, é que a educação do leigo passa necessariamente pela escola, mesmo que seja uma educação científica geral, de outra forma, onde ele iria ganhar esse conhecimento? Creio que, ao invés de os linguistas ficaram chorando as pitangas porque jornalistas de divulgação científica, filósofos, e cientistas em geral não leem mais seus livros de divulgação (coisa que poucos cientistas fazem no Brasil, divulgação – ainda vou escrever um “Linguística para Dummies”), eles deveriam tentar modificar o ensino de gramática, inserir conceitos de linguagem atuais, e com uma didática contemporânea. Nos livros didáticos de português são inseridos conteúdos transversais que poderiam facilmente ser ensinados em disciplinas como ciências (no ensino fundamental), ou em biologia (no ensino médio). Deveria haver um espaço para que o professor de português fizesse reflexões mais elaboradas, mesmo que simples, sobre a linguagem. Todos temos um ‘instinto’ para essas questões: facilmente reconhecemos um sotaque diferente; percebemos que diferentes comunidades usam algumas palavras diferentes para se referir ao mesmo objeto no mundo; gostamos de contar piadas que se aproveitam de ambiguidades para gerar o riso; e assim por diante. Desta forma, eu diria que o problema não está na comunidade científica, está nos professores que formamos e nos conteúdos escolares. Por vezes tenho a impressão que estamos esbravejando que só ficam ensinando criacionismo na escola, logo, as opiniões dos leigos são rasas e equivocadas (um articulista da Veja entende de linguagem tanto quando o seu primo caminhoneiro), enquanto não damos condições para que os futuros professores entendam a evolução e saibam como torna-la um objeto didático (o desafio está aqui), assim, criando condições para que os alunos que saem das escolas tenham um conhecimento mais profundo sobre como as línguas funcionam e porque as coisas são do jeito que são.

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Um comentário sobre “Linguística para Leigos

  1. Lembra da fala do prof. Borges Neto na Unioeste? Ele mostrava como todas as disciplinas dadas na escola hoje tem boa parte do conteúdo baseado na Ciência, esta empreitada dos últimos 2 séculos que nos trouxe o conhecimento sobre as leis de Newton, a genética, as placas tectônicas etc. Todas, exceto a disciplina de Língua Portuguesa, que ainda segue os moldes da antiguidade clássica. E é incrível como a Linguística poderia colaborar com este processo, mas poucas pessoas ainda estão convencidas disto. A tradição morre devagar.

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