O mensalão e a semântica

Uma polêmica que gira em torno do mensalão me parece uma questão semântica. É semântica porque te a ver com como definimos o “mensalão”. A acusação inicial de Roberto Jeferson era de que havia uma mesada para os políticos que apoiavam o governo, por isso o esquema foi batizado (por quem?) de “mensalão”. Não lembro de os envolvidos negarem a origem espúria do dinheiro, o PT sempre negou o pagamento mensal, e acredito que é isso que Lula faz quando diz que o mensalão não existiu, ele quer dizer que não houve o pagamento mensal. Mas afinal, a que tipo de estado de coisas no mundo a expressão ‘mensalão’ se refere?

Há basicamente duas coisas: a) para o PT, ‘mensalão’ é a acusação de que o partido tenha usado dinheiro de caixa dois para comprar votos de parlamentares. Dinheiro esse, pelo menos de acordo com o que eu entendi sobre tudo que se publicou sobre o caso nos últimos tempos, veio de empréstimos que de fato não existiram. A resposta é que o dinheiro veio de contratos fraudulentos entre empresas públicas e as agências do Marcos Valério, que, depois de pegar a sua comissão, repassava o dinheiro ao partido. b) o escândalo como um todo. Vou ser claro, o que o partido nega é o pagamento MENSAL, que de fato não foi provado, já que o partido usou o dinheiro para financiar campanhas (inclusive a do Lula? Isso ninguém perguntou, que eu sabia), não para comprar votos parlamentares. O que seria bem estranho, pagar para gente do partido e de partidos aliados votar nas matérias de interesse do governo. Isso eu acredito que não tenha acontecido. O esquema todo de esquentar o dinheiro usando empréstimos falsos, sim.

De certa forma, o esquema é menor do que querem nos fazer crer. Não dá pra medir o quão grande ele é, mas ele tem sua importância por duas razões: O PT sempre foi um arauto da honestidade e o escândalo mostrou que o partido não é diferente de nenhum outro; e foi articulado por pessoas importantes do partido, que possuíam papéis importantes no governo. Geralmente os escândalos políticos eram articulados por deputados e senadores visando enriquecer com desvio de verbas públicas. Aqui o buraco parece ser mais embaixo (ou mais acima), o objetivo dos desvios era a compra de apoio parlamentar, segundo a denúncia original. Mas basta ler o que se publicou sobre o caso para ver que não foi esse o caso. Por mais que Joaquim Barbosa tenha escrito que, sim, o PT comprou apoio parlamentar. Mas por ele ter escrito isso, não quer dizer que os eventos tenham acontecido. Quem dos parlamentares foi acusado de enriquecimento ilícito? Nenhum. Então pra onde foi o dinheiro? Segundo consta, foi para pagar despesas de campanha do PT e dos partidos aliados.

Tem ainda essa história toda de que o Lula disse que o mensalão não existiu. Na verdade, o que ele negou foi o pagamento da mesada aos parlamentares, não o esquema como um todo (clique aqui). O que a gente viu ser julgado foi apenas uma fatia do negócio, provavelmente, uma versão dos fatos. Jamais saberemos o que de fato aconteceu. O que a população, os jornais, e todo o resto (excluindo o PT) entendem quando ouvem ou leem a palavra ‘mensalão’ é o escândalo como um todo. No final das contas, o debate político que se trava em torno disso é sobre as coisas que a palavra engloba, que para os dois lados são diferentes.

Aqui tem um guia bem completo da história toda.

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