Como a ironia funciona

Em tempos de Facebook e Twitter me parece que há, tacitamente, uma certa obrigação por ser “engraçadinho”. A comunicação pura e simples, entendida como a simples transmissão de informação fica em segundo plano. Não nego que a informação pura e simples exista, ela há  e em grande quantidade. Me interessa o fenômeno do comentário, do sujeito querer parecer engraçado. Perfis no twitter como o @O_Bairrista, @Aphilosoraptr, @dilmabr, @(coloquequalquercoisaqui)dadepressao, @RealMORTE, ou no Facebook o recente sucesso da Gina Indelicada, as famosas páginas da depressão ou os postais com fotos de um Willy Wonka irônico ou um garotinho olhando torto também são famosas. A recente leva de humoristas profissionais em comentários jocosos é uma prova desse fenômeno. Os caras não são bons piadistas, só conseguem fazer comentários a partir de fatos ou outros comentários.

Linguisticamente a pergunta interessante é: como é que uma dada sequência de símbolos linguísticos usualmente associada a um dado significado adquire outro em certas situações comunicativas? O problema fica ainda pior quando percebemos que nada, absolutamente nenhum traço linguístico, nos permite identificar quais as intenções da pessoa ao dizer o que disse (veja que a função da foto no Facebook cumpre justamente a função de ser um elemento paralinguístico, algo que é linguagem, mas não é verbal, que auxilia na interpretação). Mas como é que a gente chega lá, então? De onde surge a graça das tiradas irônicas? E por que algumas simplesmente parecem sem graça?

Eu gosto da resposta dada pelo filósofo Paul Grice, em um artigo de 1967 chamado “Lógica e conversação”. Para o filósofo o fato de conseguirmos interpretar o significado não literal de proferimentos do tipo “Fulano é um bom matemático, escreve as fórmulas lindamente.” como significando que “Fulano não é um bom matemático.” se deve ao fato de sermos capazes de ‘calcular’ esse segundo tipo de significado, que mesmo não dito explicitamente, está implicado no que é dito. Na maioria das vezes, por convenções sociais, usamos circunlóquios com o objetivo de não dizer diretamente o que queremos dizer ou não nos comprometermos diretamente com a asserção implicada, deixando a segunda leitura a cargo do ouvinte. Grice enumera uma série de construções linguísticas que envolvem raciocínios desse tipo, e a ironia é uma delas.

O perfil da Dilma Boladona @dilmabr é interessante nesse aspecto. Em primeiro lugar porque o tipo de comentário que o perfil publica não é o esperado para quem ocupado o cargo político mais importante da nação, além de termos da presidenta uma imagem de pessoa austera e séria. Frases como (1) são emblemáticas:

(1) “Lula ficou me mandando corrente o dia todo falando que o whatsapp passará a ser pago. Vontade de exilar todos que ficam repassando isso!”

Claro que o raciocínio que explica o fato de interpretarmos (1) da forma correta e jamais imaginarmos que de fato Lula fica encaminhando e-mails-corrente para seus contatos revela que existe algum princípio geral regulando a nossa interpretação dessas frases. É bem possível que existam aqueles que julgam que blogues como o da Cleycianne ou do Hariovaldo Almeida Prado sejam reais e não apenas deboches de crentes no primeiro caso e conservadores no segundo. Isso nos mostra que, em alguns casos, entender a ironia (ou o deboche, é difícil traçar a distinção) envolve uma série de conhecimentos ou a falta deles. Além disso, se as pessoas não pegam o sentido irônico, é porque de fato elas acreditam no que eles dizem, embora isso não me surpreenda (não mais, mas me entristece). Claro que há outras coisas em jogo no caso da Cleycianne e do Hariovaldo, como a intertextualidade e a ideologia. Afinal, o humor, muitas vezes é uma forma de reafirmar ou reforçar comportamentos julgados inadequados, mas sobre os quais não gostamos de falar abertamente, tais como a violência doméstica, estupro, aborto etc. Quando você se dá conta de que estupro e bater em mulheres não são coisas que se deva fazer, piadas com esses temas deixam de ser piadas, perdem a graça, e se tornam pura e simplesmente a expressão da misoginia. Tem um amigo que costuma repetir a seguinte piada: “tem que bater na mulher todo dia, você pode não saber porque está batendo, mas ela vai saber porque está apanhando.” As mulheres nunca riem, por que será?

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