As palavras e os fatos

Tenho reparado que a imprensa tem feito um uso estranho de certas expressões, desviando-as dos seus significados originais. Não que isso seja proibido, afinal é justamente a deriva de significados, o uso de uma palavra com significado x fora de seu uso comum que faz com que a língua se enriqueça e mude. E convenhamos, mudanças sempre são boas, bendita a hora em que nossos ancestrais perceberam que o fogo, além de esquentar, servia também para cozinhar os alimentos, que ficavam bem mais gostosos assados.

Vamos a um caso: ‘suspeito’. Quem é o suspeito? De acordo com o dicionário Aurélio: “adj. 1. Que infunde suspeita; suspicaz.2. que inspira cuidado ou desconfiança. 3. De cuja existência ou verdade não se tem certeza.” [grifo meu].  Agora, vejamos alguns usos atuais dessa palavra:

(1) “Pela terceira madrugada consecutiva, um banco atacado por criminosos no Rio Grande do Sul. Desta vez, foi a agência do Santander de Torres, no Litoral Norte. Um suspeito foi preso e outros dois fugiram.” (http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/policia/noticia/2012/08/bandidos-arrombam-agencia-bancaria-em-torres-3840498.html)

Essa agora é de um caso bastante comentado na cidade (Porto Alegre, RS) nos últimos dias:

(2) “Suspeito de assassinar a mulher e o filho, o bioquímico Ênio Luiz Carnetti foi autuado em flagrante por duplo homicídio duplamente qualificado por motivo fútil (ciúmes) e também por não haver chance de defesa da vítima, segundo o delegado Cléber dos Santos Lima.” (http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/policia/noticia/2012/07/autuado-em-flagrante-suspeito-de-matar-mulher-e-filho-nao-tem-previsao-de-sair-do-hps-3833465.html)

(3) Patrícia Poeta, no jornal nacional do dia 06 de agosto fala do “suposto empréstimo” do qual José Genoíno teria sido avalista. Se o empréstimo é “suposto” como esse fato pode ser tomado como prova para condená-lo ou acusa-lo? Afinal ele é acusado justamente de ser avalista de empréstimos falsos, usados para lavar o dinheiro proveniente de corrupção, segundo consta e pelo que entendi. Esse último uso difere um pouco dos primeiros, porque o contexto em que ele está inserido toma o fato como suposto, logo, não há certeza se ele ocorreu ou não. A pergunta que surge, independentemente de ele ser culpado ou não é: pode-se acusar alguém com base em um “suposto empréstimo”? Afinal, “suposto” é definido como “hipotético” pelo mesmo Aurélio.

Os casos (1) e (2) são interessantes porque mostram que o “suspeito” está sendo usado de outra forma, quase como sinônimo de “acusado”. Os fatos não negam que os indivíduos foram agentes dos crimes que lhes imputam, então o que leva os jornalistas a os chamarem de “suspeitos”? Ambos foram pegos em ‘flagrante’, ou seja, a polícia os prendeu logo após os crimes serem cometidos. Assim, eu diria que o uso da palavra nesses casos está equivocado, já que os indivíduos são claramente culpados. Apesar disso, não condeno o uso, pois como eu disso no parágrafo inicial, é justamente a inserção da palavra de um contexto que lhe dá um novo matiz de significado um dos fatores que move a mudança. Esperemos que o tempo nos mostre se estou errado. Ou toda essa conjectura será apenas paranoia de semanticista?

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