Pegadinhas de prosódia

Essa coisa da gente ser linguista faz com que olhemos para o modo como as pessoas falam de uma forma especial. Ao contrário do gramático normativo e do pedante que acha que sabe gramática só porque sabe que todas as proparoxítonas são acentuadas e que não se separa sujeito de predicado por vírgula, o linguista olha para a língua com os olhos do cientista natural buscando entender certos aspectos da fala, desde a menor unidade, o fone (os sons que produzimos, grosseiramente falando) até coisas mais complexas como os textos e o seu funcionamento na sociedade. Pois bem, meu sogro e meu sobrinho apareceram com duas pegadinhas:

(2) Quanto é a metade de dois mais dois?

(3) Vinte cinco tira fica quanto?

Naturalmente somos levados a responder em (2) 2 e em (3) ficamos sem chão porque a estrutura argumental do verbo ‘tirar’ está incompleta, tirar quanto?

Comecemos por (2), se alguém pronuncia naturalmente a sentença em (2), não há outra forma de responder a pergunta. O sujeito então dirá que você não entendeu a pergunta, e irá pronuncia-la com a seguinte curva entoacional: “Quanto é a metade de DOIS (pausa) mais dois)? O que corresponde a outra fórmula: 2/2 + 2, já que naturalmente interpretamos como (2+2)/2. Obviamente a pegadinha só faz sentido se pronunciada naturalmente e joga-se a culpa na má interpretação no ouvinte, quando na verdade é a pergunta que está errada. Acontece que essa mesma cadeia de símbolos linguísticos pode significar duas coisas, dependendo da forma como é pronunciada. Ou seja, você não é burro, só interpretou da única forma possível.

O mesmo acontece com (3), ficamos com a sensação de que falta alguma coisa. Pronunciada naturalmente não dá pra saber a resposta de (3), daí o sujeito que faz a pergunta vai dizer que você não entendeu o problema e repete calmamente o problema: “Vinte (pausa) cinco (pausa) tira. Quanto fica?” Repare que é outra entoação, há pausas e o problema, que antes era (25 – x) agora é (20 – 5), é como se isso significasse: eu tenho vinte, tire cinco, quanto tá?

Claro que essas pegadinhas são engraçadas, mas não deve ser nada engraçado para uma criança aprender matemática com um professor que gosta de fazer esse tipo de pegadinha, mesmo que por incompetência em lidar com a linguagem e perceber que os enunciados das questões, quando lidos podem gerar duas interpretações, dependendo da forma como são lidos. Por isso que o Tarski era meio avesso a tratar as línguas naturais como linguagens lógicas, ao que Richard Montague (que foi orientado por Tarski e faleceu aos 41 anos, em um crime não resolvido) se opôs e por isso hoje eu tenho o que pesquisar (oba!) usando ideias que uma estudante de Montague semeou na linguística Barbara Partee. Além de Alfred Tarski, outros filósofos e lógicos eram céticos quanto à viabilidade de se fazer filosofia usando linguagem natural, as línguas humanas, justamente por serem vagas e ambíguas.

E a prosódia, ao contrário do que dizem as nossas gramáticas escolares, não é a área preocupada com a correta pronúncia das palavras. Na linguística contemporânea, essa área da fonética se preocupa em estudar a pronúncia de palavras e orações, utilizando ferramentas computacionais para isso. Se hoje temos sistemas de reconhecimento de voz, é muito em função desse tipo de pesquisa básica. A prosódia também é conhecida por analisar o que se chama de elementos “suprassegmentais”, já que os segmentos são os fones, as menores unidades de fonação, as vogais e consoantes (basicamente), assim a prosódia estuda a sílaba, o ritmo e a forma como os falantes de uma língua pronunciam as orações nessa língua. Que como vimos possui grande diferença na comunicação. Repare que na escrita é muito mais complicado captar nuances de significação, como a ironia, quando facilmente fazemos isso os lábios e os interpretamos com os ouvidos, por simplesmente modular o tom de voz, os elementos que pronunciamos com mais força e a rapidez com que os pronunciamos.

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Sobre prosódia: Prosody (página na wikipedia, em inglês) o que me leva a pensar que seria legal ter gente interessada em crias páginas de linguística em português na wikipedia.

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