O português é uma língua machista?

Em geral essa discussão parte de feministas e como linguista penso que uma coisa não tem nada a ver com a outra e tentarei mostrar o porquê (talvez porque eu seja homem?). Vejamos a seguinte afirmação, retirada do blogue de uma feminista bastante popular na rede, Lola Aronovich: “…quando usamos a palavra homem como sinônimo de ser humano, em casos como “a origem do homem”, passamos a impressão que homem é mais ser humano que mulher. Quando escrevemos sobre um sujeito indeterminado e dizemos ele ao invés de ela, idem.” Para entender melhor do que ela está falando vou utilizar algumas noções da linguística, a de marcação/não-marcação e arbitrariedade/iconicidade. Mas antes disso vou explicar como funciona o sistema de flexão nominal de gênero na nossa língua.

Sabem aquela história, que nos contam as gramáticas, de que o masculino em português se faz com o “–o” e o feminino com o “–a” no final das palavras? Pois é, é uma das grandes mentiras que esses livros insistem em perpetuar. Sabe aquela classificação dos substantivos em epicenos e sobrecomuns? Inútil. Na verdade, segundo nos ensina Joaquim Mattoso Câmara Jr., em seu Estrutura da Língua Portuguesa (1970), o português possui três classes de palavras em relação à flexão de gênero: a) palavras de gênero único, exemplos: mulher, homem, casa, onça, cobra… nesse conjunto se inserem os sobrecomuns, que são usados independentemente de o substantivo se referir a um homem ou a uma mulher, ex.: a criança, o cônjuge, a vítima, a testemunha… ; b) palavras de dois gêneros sem flexão (os comuns de dois gêneros): o/a estudante; o/a cliente, o/a dentista; e c) palavras em que a oposição de gênero (não sexo), é marcada flexionalmente (isto é, há uma parte da palavra que nos diz se a palavra é masculina ou feminina, isso não acontece nos tipos (a) e (b)): gato/gata, peru/perua, freguês/freguesa, etc. Mas por que o “-o” não marca o masculino? Ora, pelo simples fato de que é um pequeno número de palavras do tipo (c) que faz o masculino dessa forma. Veja o quadro abaixo:

Peru/perua    mestre/mestra        professor/professora

Guri/guria    gato/gata               freguês/freguesa

Então quer dizer que palavras masculinas que terminam em –u, -e, -r, -s, -i, -o fazem o masculino em –a? Não. A explicação é bem mais simples. Podemos dizer que nas palavras do tipo (c) o masculino é a ausência de qualquer marca explícita na palavra, enquanto que o feminino, na maior parte dos casos, se faz com a adição do –a. Claro, há algumas exceções, como “poeta/poetisa” e “ator/atriz”, que são explicadas de outra forma.

É justamente pela ausência de qualquer marca de gênero nos nomes masculinos que eles são usados como o termo genérico, ou, usando a terminologia linguística, como a forma não-marcada. Esse uso genérico é possível porque o masculino inclui o feminino ao passo que se alguém escrever “as alunas estão convidados para a cerimônia.” entenderemos que os alunos estão excluídos do convite. Veja que inclusive podemos usar termos femininos como formas genéricas, se referindo a toda a classe, como com as palavras “as cobras, as formigas, as baleias”, que também inclui os indivíduos dessas espécies que são machos.

E de onde provém essa ideia de que porque usamos o masculino como a forma não-marcada é um reflexo do machismo da sociedade brasileira, portuguesa, angolana, moçambicana, cabo-verdiana, etc.? É aqui que entram as noções de arbitrariedade e iconicidade. Ao longo da história do pensamento sobre a linguagem uma questão recorrente era a relação entre as palavras e as coisas que elas designam. Houve quem defendesse que há uma relação causal entre os signos linguísticos (isto é, as palavras e elementos linguísticos, como o “–a”, do feminino, e.g.), ou seja, a palavra “árvore” tem a forma que tem porque designa o que designa, o objeto árvore lá no mundo. Dentro da linguística contemporânea temos pesquisadores dentro da perspectiva funcional que defendem que existe um grau de iconicidade nas línguas, isto é, certos elementos possuem a forma que possuem porque desempenham uma dada função. No início do século XX, o linguista suíço Ferdinand de Saussure defendeu a tese de arbitrariedade, postulando que não há qualquer relação causal entre a expressão linguística e o que ela designa ou a função que ela desempenha dentro da gramática de uma língua qualquer. Pois bem, acontece que para o leigo parece fazer muito mais sentido a primeira tese, a da iconicidade. Veja-se o caso dos palavrões. Não gostamos de palavrões porque acreditamos que a pessoa que tem a boca suja tem a mente suja. No caso em discussão, as feministas não gostam do uso do masculino como o termo genérico porque ele exclui o feminino, mesmo que se use formas como “ele(a)”. E é aqui que se encontra o equívoco sobre o funcionamento da língua, o uso do masculino inclui o feminino, por isso ele é a forma não marcada. Ninguém decidiu isso, é assim que o português funciona. Quando dizemos que “o homem pisou na lua” não estamos excluindo as mulheres porque “homem” nesse caso não se refere apenas aos humanos do sexo masculino, mas sim a toda espécie humana.

Veja que com isso não quero dizer que a sociedade brasileira não seja machista. Ela é, e muito. O meu ponto é que não podemos culpar a morfologia por isso. Tampouco adiantaria mudar documentos oficiais para que passem a escrever coisas como “as candidatas e os candidatos devem comparecer ao local das provas…”, se no final das contas as nossas atitudes não mudam no cotidiano. Também o fato de ofensas contra as mulheres serem sempre em relação à sua vida sexual e as ofensas contra os homens serem em relação à sua masculinidade (viado, mulherzinha, marica), sua vontade de trabalhar (vadio, preguiçoso, molenga) e a honra da sua mãe, nos dizem muito pouco sobre o machismo da sociedade. Eu vejo machismo quando escuto homens falando que as mulheres devem se comportar de tal e tal forma, quando escuto homens dizendo que lugar de mulher é na cozinha, quando leio/vejo no noticiário casos de abuso infantil, estupros, assédios, violência doméstica, ou mesmo piadas imbecis cuja única função é legitimar essas práticas nefastas. Por isso que sou cético em relação ao uso politicamente correto da língua. Porque de nada adianta mudar as palavras se nossas crenças e atitudes não mudam junto.

* * *

Essa semana foi decretada uma lei que obriga as universidades a expedirem os diplomas com a flexão de gênero. Assim, deverá vir escrito agora que fulana de tal possui o grau de psicóloga, médica (ou doutora em medicina?), licenciada em tal área, etc. Agora teremos que chamar as mulheres de “estudantas, generalas, tenentas, etc.?”. Claro que não, esse tipo de argumento é no mínimo imbecil e ingênuo. Justamente porque essas palavras são do conjunto (b). E “presidente” também não era? Pode ser que tivesse sido, mas quem manda na língua são os falantes dela, não os gramáticos, cuja função é registar o uso que os falantes fazem. Por mais que os dicionários nos digam que “grama” (como unidade de peso) e “dó” (no sentido de pena) são masculinas, o povo vai continuar dizendo “quero duzentas gramas de presunto” e “tô com uma dó dele”, só faltam os dicionários e gramáticas aceitarem isso. Se a forma “presidenta” vai pegar por força de lei? Isso não dá pra dizer, vai depender de a comunidade dos falantes do português brasileiro adotar a palavra.

Links sobre o tema:

Nossa língua não é machista

Post da Lola Aronovich

A Mentalidade de cada língua

http://conhecimentopratico.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/23/artigo178963-1.asp

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