Por que pesquisar o português?

O Mario Perini explica melhor que eu o que é pesquisa em gramática

Eu tinha planejado falar de outra coisa hoje, mas como o meu professor de violão me desafiou com a pergunta  “o que se descobriu sobre o português nos últimos tempos?” resolvi pensar sobre isso já que a minha aula de violão acabou virando um debate sobre a importância da pesquisa científica, que pra ele é nenhuma. É difícil explicar para o leigo os problemas científicos em linguagem, afinal, para o cidadão comum não há nada relevante a ser estudado ali e as consequências desse estudo não possuem uma aplicação direta na sua vida (tá e daí se o português brasileiro tem objeto nulo?), não é como se estudando o solo pudéssemos melhorar a produtividade de uma plantação ou saber que tipo de planta cresce melhor naquele ambiente, ou fôssemos curar alguma doença estudando uma bactéria ou vacina nova.
Por que, mesmo com as diferenças regionais de pronúncia, nos entendemos?
Eu tentei explicar pra ele (talvez o exemplo não fosse o mais adequado, mas foi o único que me surgiu naquelemomento) que hoje sabemos melhor como funciona a comunicação e conseguimos explicar porque, apesar das diferenças regionais de pronúncia e sotaque, falamos que um gaúcho, um mineiro, um cearense, ainda falam o português. Eu perguntei a ele como ele explica que embora existam diferentes pronúncias regionais para uma mesma palavra, as pessoas ainda se entendem. Um cearense vai falar ‘mininu’, um paranaense ‘meninu’ e um gaúcho ‘menino’, essa última pronúncia é mais próxima da nossa escrita, só que isso não é relevante, estamos preocupados com a fala. Para o J. (meu professor de violão), isso é óbvio, a língua é uma convenção, e as pessoas se entendem porque convivem na mesma sociedade. Eu repliquei, mas suponha que um gaúcho dos pampas se encontre pela primeira vez com um sertanejo do ceará, e o gaúcho fale ‘menino’. Será que o sertanejo vai encontrar problemas para entender o que o gaúcho quis dizer? Ele não se convenceu, pois não entendeu o problema. Tentei ser mais específico. Vejamos o seguinte. Agora compare os seguintes pares: ‘pira/pêra’, ‘murro/morro’. O que aconteceu? Se eu troco um som pelo outro as palavras mudam de significado nesse caso, mas não mudam no outro. Será que não temos um problema científico interessante aí? Como é que o cara que nunca falou ‘mininu’, e vive em uma comunidade que só fala assim, ouve alguém falar ‘menino’ sabe que essa palavra significa o que significa e significa a mesma coisa que se ‘mininu’ significa? É, ele não viu graça e interesse nenhum em estudar isso.
O que aprendemos sobre o português nos últimos 100 anos?

Gramática de João de Barros (1560), segunda gramática sobre o português, e há quem diga que é cópia de uma gramática latina

Claro que para o leigo dizer que: descobrimos os nomes nus; que o português está passando por um processo de rearranjo do sistema pronominal (tônico e átono) e de concordância verbal; que usar o pretérito perfeito não acarreta que a ação que descrevo tenha chegado ao seu final natural no passado; que só se pode concordar em gênero e número, não em grau, porque o grau não é um processo flexional, logo não desencadeia concordância; são coisas que não farão o menor sentido. Provavelmente se ele souber algum dia que se estuda matéria escura, ou física quântica vai achar uma perda de tempo. Descobrimos que não há nada mais feio ou mais bonito ou mais certo ou mais errado entre ‘dois reais’ e ‘dois real’, entre ‘nós vamos almoçar’ ou ‘a gente vamos armoçá’ ou ‘nóis vai armoçá’. Pelo menos ninguém conseguiu provar que quem usa as opções ditas ‘corretas’ é mais inteligente e capacitado para tarefas cognitivas do que o sujeito que utiliza as opções coloquiais. O fato de que uma é considerada a correta é uma opção política, uma escolha, e escolhas envolvem juízos de valor. Não é um fato natural que as opções ditas ‘corretas’ sejam as mais adaptadas para a comunicação. Pelo contrário, o que a pesquisa nos mostra é que se uma comunidade usa uma forma linguística qualquer (gostemos disso ou não), essa forma se presta aos usos comunicativos de que aquela comunidade necessita. Acho que aprendemos também que as línguas não pioram, não deterioram, não se corrompem, e por mais que Saramago pareça uma autoridade em termos de língua, não se preocupem, jamais voltaremos a grunhir, como ele prevê no seu depoimento para o documentário ‘Língua: vidas em português’. Também tentei argumentar que, por mais que agora muita pesquisa não tenha aplicação prática, no futuro poderemos ver os resultados, e aquilo que parece sem valor agora, poderá ter amanhã, ou contribuir, mesmo que seja um pouquinho, para a compreensão da nossa realidade linguística ou para como o português funciona e com isso, entender como as línguas humanas funcionam de uma maneira geral. Uma das mais importantes descobertas do século XX (embora no funda seja uma hipótese) é a Gramática Universal. Acreditando que ela existe, quais as consequências? Nascemos aptos pra falar qualquer língua, e em decorrência disso há regras muito abstratas que todas as línguas obedecem, apesar das diferenças superficiais arbitrárias.

Se J. conhecesse os gregos mesmo diria que Aristóteles já acreditava nisso, que gramáticos de Port-Royal também defendiam isso e que o Chomsky só copiou a ideia. Só que a diferença é que hoje podemos mostrar isso, mostrar que línguas tão diferentes como o inglês, o português e o japonês obedecem aos mesmos princípios gramaticais. Mas pra ele isso não fará diferença, já que é só uma hipótese de trabalho, uma teoria, e por enquanto não temos certeza absoluta disso, e se a ciência não nos dá verdades (dá verdades, mas provisórias), pra que se dar ao trabalho? E se descobrirmos que o c-comando é uma princípio universal, que diferença isso vai fazer? Não vai mexer com o preço do petróleo, certamente, mas estudos desse tipo nos ajudaram a perceber que mesmo a língua de uma pequena tribo na amazónia é tão complexa quanto o alemão ou o japonês, que a língua que o sertanejo ou o colono da roça falam tem tanta regra quanto a língua que os nobres jornalistas da Veja e da Folha de São Paulo falam. Se a pesquisa linguística nos ajudou a ter menos preconceito em relação a povos ‘menos civilizados’ que nós ou em relação a comunidades brasileiras com menos oportunidades de educação que nós habitantes das cidades temos, isso já não é um ganho suficiente? Ou ainda, de que adianta ensinar linguística nas faculdades de letras se nunca teremos um Bloomfield, um Sapir, um Jakobson, um Chomsky. Tivemos um Mattoso Camara Jr., para o qual muitos alunos ainda torcem o nariz, infelizmente não sabemos apreciar os nossos gênios. Todo mundo na academia tem um currículo Lattes, mas quantos sabem quem foi César Lattes? Afinal, o senso comum nos diz, através da voz de J. que o estudo não importa, precisamos ter talento. Não existe novidade na ciência, só cópia. Vai ver o Mattoso descreveu o sistema vocálico do português brasileiro copiando a gramática do latim.

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4 comentários sobre “Por que pesquisar o português?

  1. O comentário mal-humorado deixei no facebook. Então aqui eu quero tentar contribuir. Concordo com o que você disse, mas sou tagarela. E vou ficar só com a parte do “O que aprendemos sobre o português nos últimos 100 anos?”, levando em consideração o fato de que o senso comum cobra respostas da ciência (também da linguística). E o senso não tão comum também, uma vez que já ouvi um colega linguista, doutor, se perguntando quais foram as maiores descobertas da linguística nos últimos 100 anos. Ora, fora tudo isso que você disse que está diretamente relacionado com a nossa cidadania, nossa cultura, nossa sensação de pertencimento à pátria, uma luta contra o “complexo de vira-latas”, acho que a linguística não é das mais pragmatistas, como talvez nenhuma ciência seja. Quantas e quantas “descobertas” foram feitas por acidente, quando se olhava pra outra coisa. Só que, por outro lado, descobrimos que as línguas têm em comum um monte de coisas, não só origens. Uma questão quase tão velha quanto se deus existe é a de quem deu nome às coisas, se há motivações pros nomes serem os que são, por que línguas diferentes dão nomes diferentes, por que há palavras de uma língua que não podem ser traduzidos por uma única palavra em outra língua, por que falamos coisas que não tem utilidade (como aquelas observações feitas no elevador: “Choveu, hein?” ou “Está frio hoje”), como pudemos evoluir enquanto espécie por meio da nossa comunicação e como o fato de termos inventado um artefato cultural, que é a escrita, proporcionou que, enquanto espécie, tivéssemos um ganho fantástico na transmissão das nossas informações. Isso sem contar com o fato que você já mencionou que é a maravilha que é podermos, só de ouvir alguém falar “mórena”, saber de onde essa pessoa veio, saber que se estamos diante de uma ou de outra pessoa podemos fazer escolhas lexicais diferentes, mas também sintáticas, fonológicas e morfológicas. Descobrimos também que o fato de eu começar o texto dizendo “Concordo com o que você disse, mas sou tagarela” pode querer dizer que você poderia pensar que eu concordar seria motivo pra não falar mais nada, então de cara assumo um posicionamento e digo que não é e, com isso, quase antecipei uma resposta possível. Enfim, uma série de coisas que, olhando de agora, parecem com “botar o ovo em pé”, mas que não são triviais e não são “descobertas” por quem estiver interessado olhando pra outra coisa, mas só por quem estiver interessado olhando pra essas questões. Pode não ter uma relação direta entre isso e o desenvolvimento de alguma tecnologia, mas nenhuma ciência é feita assim. Um agrônomo que pesquisa o solo para saber quais plantas vão produzir mais ali o faz com base em uma série de estudos que não diziam necessariamente alguma coisa a respeito de fertilidade. A analogia vale para qualquer área. Como eu disse, pode parecer bobo depois que é explicitado, mas dá trabalho para enxergar essas coisas para que possam ser explicitadas. Enfim, não sei se colaborei, mas pelo menos desabafei =)

  2. Estranha pergunta, vinda de um músico. Você poderia perguntar a ele, mas afinal, que serventia tem o violão para a vida em sociedade. A resposta, é claro, versaria sobre como a música enriquece a vida humana e etc. Analogamente, também o estudo da linguagem nos enriquece enquanto humanidade. O estudo da linguagem nos permite penetrar as diferentes culturas humanas, e também compreender como é possível que um ser humano coloque ideias na cabeça do outro. Mas se estamos falando de benefícios à vida humana, então eu diria que a linguística é mais útil ao homem do que o violão. O estudo da linguagem nos permite compreender melhor diversas patologias da linguagem e orientar tratamentos adequados. Também possibilita que as pessoas aprendam as línguas umas das outras, cada vez melhor e mais rápido. Permite, inclusive, que ensinemos as máquinas a compreender a linguagem humana e, mais ainda, a corrigi-la (quem nunca usou um “Google Translate” ou um corretor ortográfico que atire a primeira pedra). A linguística possibilitou que fôssemos atendidos por versões sofisticadas da máquina de Türing, economizando muito dinheiro aos donos de empresas de telemarketing (foi mal, a ciência nem sempre é usada para o bem). Por outro lado, sem os linguistas não teríamos máquinas que falam por pessoas que já não podem mais usar sua própria voz, e as línguas de sinais provavelmente ainda seriam consideradas meros “códigos”, com seus falantes surdos excluídos do sistema de educação formal. Linguistas dizem aos pedagogos, ainda que estes últimos muitas vezes não gostem de ouvir, como seus métodos de ensino de língua materna podem ser melhorados. Graças aos linguistas populações indígenas podem ser alfabetizadas em sua própria língua e assim preservá-la, junto com seu modo de vida, por algum tempo mais, e mostrar para o mundo que eles existem. Eu poderia gastar algum tempo mais e pesquisar outras contribuições da linguística, mas acho que já demonstrei meu argumento. Mas e o estudo do português, que tem a ver com tudo isso, perguntará o professor de violão. A resposta é que só se pode estudar a linguagem humana a partir do estudo de todas as suas manifestações concretas, que são as línguas humanas. Assim, saber o que se descobriu particularmente sobre o português, ou sobre o inglês, ou sobre o Swahili, terá a mesma validade: contribuir para o arcabouço de conhecimento acerca da nossa capacidade de falar, que, assim como tocar violão, nos torna humanos.

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