Penúltima flor do lácio

Sempre acho estranho que um colunista formado em engenharia e direito se meta a falar de língua, mas nesse caso dou o braço a torcer porque o texto é bom a vale a reprodução (desautorizada, claro, se a Folha não gostar é só me avisar que eu tiro do ar o texto, mas como tem muito texto desse jornal sendo republicado em blogues por aí, acho que não corro esse risco). Só uma correção. Acho enganoso o título ‘penúltima flor do lácio’. O português é filho do latim (a língua do povo do Lácio, região onde fica a atual Roma, que deu origem ao império romano, atual Lazio), e o webportuguês é filho do português, o que o faz neto do latim, daí que eu acredito que o português continuaria sendo a última flor do Lácio, embora seja difícil afirmar em termos históricos qual a última língua a se desmembrar do latim vulgar, já que todas (francês, italiano, romeno, espanhol, galego, catalão, etc.) tomaram o seu rumo mais ou menos ao mesmo tempo (quando da queda do império romano). De qualquer forma, o texto é uma opinião sensata, sem aqueles alarmismos ingênuos que defendem que o webportuguês está corrompendo a língua ou a capacidade de expressão dos nossos jovens. Segue o texto.

Se estivesse vivo, o poeta Olavo Bilac, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, talvez sentisse forte inclinação a fazer sutil mudança no primeiro verso de seu célebre soneto “Língua portuguesa”. Em vez de “Última flor do Lácio, inculta e bela”, provavelmente ele alteraria para “Penúltima…”.

Nada mais lógico, pois agora a última “flor do Lácio”, nem sequer certamente entendida de modo pleno pelos antigos leitores de Bilac, é o português “falado” pelos jovens na internet e nas redes sociais.

São numerosos códigos, abreviaturas oficiosas, neologismos e construções gramaticais “inovadoras” que descaracterizam nosso idioma, considerado um dos mais ricos, complexos e positivamente redundantes sob o aspecto da linguística e da semiótica.

Desde os simples e já ultrapassados e-mails até o Twitter, o Facebook, o Orkut, o SMS e outros aplicativos, crianças e jovens comunicam-se com extrema agilidade e fluência, usando seus computadores, celulares e tablets.

O mais extraordinário é que, nesse “webportuguês”, privilegiando consoantes, conseguem expressar todo tipo de informação, bem como emoções e sentimentos nas suas mensagens de Natal, Dia das Mães, Dia dos Pais e até nas declarações ao primeiro amor.

Pouco a pouco, os adultos, de maneira inevitável, vão incorporando a linguagem dos jovens na internet. Surge novas maneiras de expressão adequadas às mudanças culturais que a tecnologia suscita. Agilidade é tudo o que precisa uma sociedade na qual o tempo tornou-se commodity comportamental. Os jovens intuíram isso antes de todos, percebendo que a síntese eleva muito a produtividade da comunicação nas mídias digitais. Um ensinamento para ninguém botar defeito.

Portanto, nada a criticar. Mas há algo a ser considerado. Simultaneamente ao uso de sua criativa e eficaz linguagem, crianças e jovens não podem perder-se quanto à boa e sempre renovada língua portuguesa. Isso reforça a importância da qualidade do ensino do idioma nas escolas e o papel das famílias na atenção ao “certo”, tanto no acompanhamento das lições de casa, quanto valorizando os bons hábitos semânticos, gramaticais e lexicais no cotidiano.

Da mesma maneira que o já corriqueiro aprendizado do inglês não deve impedir que o bom português seja cultivado na infância e na juventude, o idioma “internético” não pode ser empecilho à correção no uso de nossa língua pátria.

Creio que o mais importante nesse tema seja a democratização da excelência do ensino e do acesso aos computadores e à web. Se garantirmos isso, as futuras gerações falarão e escreverão de modo escorreito a “penúltima flor do Lácio”. Vc tb concorda, bro?

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