Considerações sobre o palavrão (parte III)


Me empolguei com esse tema e vou falar dele hoje novamente. Quanto mais você procura há mais coisa a se dizer, tô me sentindo feito pinto no lixo. Há uma série de questões interessantes envolvendo os palavrões, e cito aqui as apontadas por Steven Pinker, no capítulo “As sete palavras que não se pode dizer na televisão”, que está no livro “The Stuff of Thought”.

a)      O palavrão é universal: aparentemente todas as línguas humanas possuem esse tipo de palavra ‘tabu’;

b)      Arbitrariedade do signo: Saussure nos ensinou que a relação entre o som e o significado é arbitrária, pessoas que não gostam do palavrão parecem pensar o contrário, a palavra é a coisa, ou está no lugar dela;

c)       Palavras e tabus (ou coisas das quais não devemos falar): sexo, excrementos, ofender minorias ou a moral de alguém;

d)      As situações sociais em que usamos palavrões.

Quem estiver interessado em se aprofundar nisso pode consultar o texto de Pinker, eu, como disse no post anterior, vou me preocupar em entender porque certas palavras ofendem as pessoas, mesmo que as palavras não sejam ditas a elas, como uma ofensa. Se você não gosta de ler ou ouvir essas palavras, eu sugiro que saia daqui enquanto é tempo.

Os grupos

Separemos as palavras em grupos (o leitor pode listar muitos outros):

a)      Sexo e seus subprodutos: foder, comer, trepar, dar uma, pagar um boquete, chupar, cu, fazedor de merda, gozar, porra.

b)      Órgãos sexuais masculinos: bola, batata, caralho, pinto, pau

c)       Órgãos sexuais femininos: teta, xota, perereca, buceta, racha, xavasca

d)      Integridade moral do homem: vagabundo, filho da puta, cuzão, boqueteiro, merda, veadinho, bichona, corno, cavalo, burro, idiota

e)      Integridade moral da mulher: vadia, puta, safada, galinha, boqueteira, vagabunda, bucetuda, filha da puta.

f)       Excrementos: merda, mijo, côco, xixi, cagar, estercar.

g)       Minorias: débil mental, mongoloide, retardado, bicha, viado, preto, polaco azedo, alemão batata

Há dentro do conjunto palavras que podem ser mais ou menos ofensivas. ‘foder’ parece ser a nossa ‘f word’, já a grande maioria das outras tem usos corriqueiros. Todos comemos coisas durante o dia, mas as pessoas comem umas às outras. A criança pode dizer que está chupando um picolé que ninguém vai ver mal algum nisso ou dizer que vai jogar bola, mas se disser ‘pegue nas minhas bolas’ é provável que alguém vai achar feio.

Há ainda um grupo de palavras ofensivas que deriva dos nomes de animais: veado, cavalo, burro, anta, jegue, cobra, baleia, piranha, cachorro, elefante, galinha. Brincamos dizendo que os animais nada tem a ver com o uso do seu nome como ofensa. Talvez eles tenham no sentido que esses usos podem ser entendidos como metafóricos. Uma pessoa obesa e um elefante são grandes, embora seja complicado achar o que tem em comum entre um homossexual e um veado.

As palavras que ofendem as minorias não possuem nada de ofensivas em si mesmas. Na verdade sua carga ofensiva reside na atitude das pessoas que as usam, e é isso que é nocivo. Ao tentar mudar as palavras ou termos para novos ‘politicamente corretos’ esperamos que as atitudes das pessoas mudem.

A discussão psicológica reside no fato de haver ou não evidência que o uso de linguagem ofensiva influencie o comportamento moral ou imoral das pessoas. O ideal seria termos dois grupos, um de pessoas que admita usar palavrões e outro de pessoas que supostamente não os usem em nenhuma situação (o que é bem difícil). Daí bastaria acompanhar o cotidiano dessas pessoas e avaliar se o que elas dizem de fato ocorre (se falam ou não e quando falam) bem como do comportamento moral delas, independentemente de falarem ou não palavrão. Novamente é o problema da linguagem e do pensamento, pessoas más devem falar mais palavrões.

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