Considerações sobre o palavrão (parte II)

Derci

No post anterior me ative somente ao que chamei de caráter sócio-antropológico do palavrão, mesmo sendo uma antropologia de fundo de quintal. Agora eu pretendo me dedicar ao lado gramatical dessas palavras proibidas de frequentarem a boca de donzelas e infantes.

Creio que dá pra olhar por dois lados: o puramente gramatical (pensando em como essas palavras funcionam no sistema) e outro do uso (como as pessoas usam essas palavras na comunicação cotidiana para realizarem certos efeitos no seu interlocutor), embora há quem pense que essas duas coisas não se excluem.

Do puramente gramatical, dá pra gente fazer um exercício como aquele famoso com o “fuck” do inglês (clica no link pra ver o vídeo). O nosso equivale seria o verbo “foder”. Com a raiz “fod-“ dá pra fazer coisa pra caralho.

Como verbo aceita praticamente quase todos os tempos e modos: “me fodi” (pretérito perfeito do indicativo), “João está se fodendo no novo emprego” (presente contínuo, o u estar +gerúndio), “Vá se foder” (modo imperativo). O imperativo tem valor de ofensa. Quanto à estrutura argumental, ele tem pelo menos duas estruturas: reflexivo “João se fodeu.” e como verbo transitivo direto ou indireto “João está fodendo com o seu computador.” ou “X está fodendo y.”, no sentido sexual. Pode funcionar como uma interjeição: “Fodeu!”. Adjetivo: “Meu computador está fodido.”

A partir do diagnóstico acima, podemos prever que os palavrões serão de pelo menos três classes: verbos, interjeições e adjetivos.

Há vários que também são substantivos: viado, bichona, cuzão, corno (usados para homens); puta, galinha, vadia (para mulheres). Interessantemente, há um uso predicativo em que podemos usar o artigo indefinido e outro em que podemos fazer a predicação diretamente:

João é um viado/um cuzão/uma bichona.

João é ?viado/?bichona/cuzão.

O mesmo vale para os femininos. O que explicaria isso? Temos dois tipos sintáticos de nominais aqui? Ou é o uso que explicaria essa alternância? Além disso, tem uma construção bem joia em que os adjetivos ocorrem: “O viado do João ainda não me pagou.” Essa estrutura é bastante produtiva: “Artigo Definido – Adjetivo – de – Nominal”. “a gata da minha vizinha”, “o chato do síndico”, etc.

As interjeições reúnem um grupo bem extenso de palavrões: “Que caralho!, Merda! Buceta! Puta que pariu!”… as interjeições são frases de situação, o que quer dizer que morfologicamente não temos argumentos para separá-las em uma classe distinta das outras palavras, embora possamos dizer que sintaticamente elas não sejam orações, funcionando como frases (para a diferença entre oração e frase consulte a sua gramática mais próxima). Há quem se ofenda de ouvir tais palavras, mas esse tipo de expressão é usado quando topamos com o dedão no pé da mesa ou na quina de um móvel ou mesmo quando o jogador do seu time perde um gol feito ou um pênalti. O leitor pode facilmente imaginar outras situações.

Quando queremos ofender diretamente alguma pessoa, daí usamos o modo imperativo: “Vá à merda!”, “Vai se foder!”, “Vá tomar no cu!” por exemplo. Não é uma ordem, enquanto ato de fala é uma ofensa.

Podemos ter ainda advérbios (sobre isso veja mais detalhes no artigo de Renato Miguel Basso e Roberta Pires de Oliveira). “pra caralho/burro/caramba” em construções do tipo: “João é esperto pra caralho.”, “João gosta pra caralho da Maria.” É um advérbio intensificador que pode modificar tanto adjetivos quanto verbos.

Em resumo: os palavrões pertencem à principais classes gramaticais, substantivos, adjetivos, advérbios, verbos e interjeições. Notadamente, são as classes em que há possibilidade de construção de palavras novas. No próximo post, continuo a discussão, olhando agora para outro aspecto: a denotação dos palavrões. Ou, por que é ofensivo chamar uma mulher de ‘galinha’ ou um homem de ‘vagabundo’ ou ‘bichona’. Novamente o lado sociológico da questão vai ser mostrar bem interessante. Será que já se escreveram teses sobre isso? No livro “Stuff of thought” de Steven Pinker há um capítulo sobre isso, falarei dele semana que vem.

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