Considerações sobre o palavrão (parte I)

Na nossa sociedade há uma classe de palavras que são interditas. Proibidas de serem ditas em certas ocasiões e círculos. Os assim chamados ‘palavrões’ não são palavras grandes, mas são palavras que o senso-comum julga feias. Acho que há duas razões para essa interdição: (a) quem fala palavrão pensa em coisas ruins (ideia filha do pensamento estruturalista ‘a língua é o espelho do pensamento’, e de toda tradição filosófica ocidental que acreditava nisso, inclusive nossas gramáticas tradicionais); (b) consequência da primeira, não usar palavrões revela educação. Vou tentar entender um pouco mais a primeira questão.

No livro “Language Matters” a linguista e autora de livros infantis Dona Jo Napoli trata de vários assuntos da linguagem que possam interessar ao cidadão leigo em linguística (um guia para questões cotidianos sobre a linguagem). Um dos tópicos trata justamente de uma questão que nos interessa: a linguagem ofensiva prejudica as crianças? As crianças são proibidas de falar palavrões, mesmo que saibamos que para elas são apenas palavras e não possuem a carga cultural que atribuímos a elas. Pelos menos não ainda na faixa dos 4 aos 8 anos (acho). É durante esse período que o vocabulário e a gramática da criança se desenvolve com mais rapidez, e a aprendizagem das palavras cresce cotidianamente. As crianças vão repetir o que escutam, embora demorem um pouco para assimilar o significado de conceitos abstratos. É em função da tese apresentada acima (a língua é o espelho do pensamento) que evitamos de falar palavrões na frente de crianças. Tememos que ao tomar conhecimento dessas palavras feias, a criança passe a ter pensamentos feios também, e quem sabe, atitudes reprováveis. É fácil mostrar como isso é equivocado, basta ir em qualquer creche ou jardim de infância. Aposto que encontraremos crianças ‘más’ que não falam palavrão algum, bem como encontraremos crianças boazinhas que possuem a boca bem suja. Evitar de falar palavrão na frente das crianças, logo, não evita que elas sejam boas ou más, ou tenham pensamentos de ódio ou inveja. Podemos educar as crianças para que controlem seus instintos de bater nos colegas, mordê-los, chutá-los ou coisas do tipo, mas não podemos evitar que elas tenham pensamentos egoístas, por isso mesmo temos que ensiná-las a compartilhar os brinquedos e a comida. De outra forma, na ausência de educação, ela vai ser egoísta. O que estou dizendo não é um abono para que os pais praguejem na frente dos filhos, muito pelo contrário. O palavrão é aquele tipo de coisa que sabemos que todos aprendem um dia ou outro (como o sexo), só os pais não querem ter a responsabilidade por terem ensinado isso aos filhos. Ou pra emprestar uma frase do Greg (o colega do Chris, no seriado ‘Todo mundo odeia o Chris’), os pais não querem ver seus filhos xingando como marinheiros bêbados.

Na fase adulta temos certos círculos sociais que permitem o uso do palavrão: esportes em geral, baralho, sinuca, bate-papo entre homens. É bem comum ouvirmos a torcida xingando o árbitro, os jogadores xingando-se mutuamente, ou o treinador praguejando com o atacante do time que perdeu mais um gol. Dizem que quanto mais forte o laço de amizade entre dois homens, mais forte é o palavrão com que se chamam mutuamente, ofensas à masculinidade e à fidelidade da mulher são os mais frequentes. Mas entre amigos tais palavrões não são vistos como ofensas, são uma forma de afirmar a brutalidade e a masculinidade. Somente ouvidos femininos se ofendem com palavrões, diz o senso-comum. Claro, essas afirmações são todas baseadas no senso-comum. Isso não quer dizer que um homem que não fale um ‘caralho’ de vez em quando seja afeminado. Isso é ainda em decorrência da tese fundamental que apresentamos acima e do estereótipo de homem: bruto, boca suja, grosseirão, indelicado (pelo menos com os outros homens). Mas daí tem a consequência nefasta do cara achar que precisa bater na mulher pra se afirmar enquanto homem. A famosa frase do Nelson Rodrigues “toda mulher gosta de apanhar, só as neuróticas reagem” só reforça esse tipo de pré-conceito. Os tempos eram outros, e isso hoje não é mais visto com naturalidade, muito pelo contrário, é crime e um ato covarde. Novamente estou ligando palavrão com violência, e me parece que seja esse o temor da sociedade. O palavrão se reveste de uma violência simbólica. Assim como certas palavras são ofensivas para algumas minorias como negros, surdos, deficientes, índios, imigrantes e outros grupos de humanos que são discriminados de alguma forma, porque são diferentes e vistos como ameaças. Nesse sentido, a palavra é inocente, só que o preconceito e o desprezo estão na mente das pessoas, nas intenções e não nos signos.

No próximo post volto a tocar no assunto, mas daí sobre um ponto de vista da descrição gramatical.

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Um comentário sobre “Considerações sobre o palavrão (parte I)

  1. oi, Luisandro.
    depois de crescida, costumo responder à minha mãe quando ela corrige meus palavrões que o palavrão tá no ouvido de quem ouve. =)
    à parte desses que funcionam bem como vocativos, a exemplo daquele das ofensas à fidelidade da mulher, eu acho mais interessante os que funcionam como intensificadores (?), como o fucking no inglês.
    dei uma refletida aqui com meus botões e fiquei curiosa por esse seu próximo post.

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