A Gramática é que é a dona da verdade

Isso é o que diz o sábio Carlos Eduardo Novaes. O texto é no mínimo engraçado e repete uma série de preconceitos que não ultrapassam um tratamento raso da questão. Dá até para usar como exercício para que calouros de Letras possam contra-argumentar.

Vou citar dois trechos do livro de Carlos Alberto Faraco (2008, Parábola) sobre o problema da norma culta:

O reconhecimento “…da diversidade contribuiu também para refinar … a percepção de que do ponto de vista exclusivamente linguístico, os diferentes modos sociais de falar e escrever a língua se equivalem: cada grupo de falantes realiza a língua por normas diferentes, mas nenhum deixa de ter suas normas.” (p. 54)

Eu não sei de onde se criou esse imaginário que afirma que os falares que não seguem a gramática normativa destroem a gramática da língua e são o caos (talvez daquela mentalidade dos séculos XVIII e XIX que afirmava que a mudança era fruto de desleixo e ignorância dos falantes). Todo falante segue algum tipo de norma ou regra, isso é um fato. Não dá para falar uma língua sem seguir alguma regra.

Ainda Faraco: “Alguém disse que, no nosso país, toda polêmica termina na gramática. Isso quer dizer que, à falta de argumentos para sustentar o debate, nosso costume é apelar para o trambique retórico, ou seja, tentar desqualificar o oponente apontando-lhe “erros” de português. Em outros termos, quando nos faltam argumentos, nosso último recurso é xingar o adversário de ignorante, ‘pois nem a língua sabe falar bem’.” (p. 65)

Interessante, não? Às vezes tenho a impressão que o Bagno está certo, o debate está sendo conduzido por não especialistas, o que só contribui para a desinformação.  A revista Isto É publicou matéria no dia 25/05/2011 entitulada “O assassinato da língua portuguesa“. O artigo tenta desqualificar Bagno, dizendo: “Bagno afirma que a linguagem reproduz desigualdades sociais – como se isso fosse uma descoberta assombrosa.” Claro que a descoberta não é dele, isso sempre foi um fato, não uma descoberta. Cristóvão Tezza é colocado como a voz dissonante entre os “especialistas” que criticam o livro, são eles: Cristóvão Buarque, Nélida Piñon, Fernando Morais, Ana Maria Machado e Marcos Villaça. Talvez o MEC devesse convidá-los para fazer parte da comissão que avalia os livros didáticos, já que eles parecem entender mais de ensino de língua do que o Tezza e tantos outros defensores do livro, que são tidos como minoria. Só pra constar tem um quadrinho ao lado na reportagem “As trapalhadas de Haddad”: novamente estão politizando uma questão que não é política. É política em um sentido, mas não é político-partidária. Para a reportagem, o método do livro causa estragos à aprendizagem, já que manteria os alunos na mesmice e não ensinaria o português culto. Será que eles estão certos? Eu queria saber como jornalista aprende a escrever nos cursos de jornalismo pelo país afora, será que é em aulas de gramática tradicional, aprendendo regência e concordância, colocação pronominal, ortografia, uso do acento grave, etc. ou em oficinas de produção escrita? Fica a pergunta…

O senador Cristóvam Buarque, estranhamente tem defendido posições conservadoras em relação à questão. O argumento para a valorização da língua que a criança traz de casa não é o argumento do preconceito. É a simples constatação: falamos de uma forma e escrevemos de outra; há um português popular e outro dito culto (embora a passagem de um a outro seja gradual e não dicotômica). Há preconceito também, mas não é esse apenas o ponto. A escola sempre ignorou a fala e sempre tratou a fala e a escrita como coisas iguais. Não são, repito. Há muito tempo linguistas defendem que se discuta a oralidade em sala de aula. Luiz Antonio Marcuschi (Da Fala para a escrita) e Ataliba Teixeira de Castilho (A língua falada no ensino de português) são apenas dois exemplos.

Eu fico por aqui. Recomendo dois sites:

Stella Maris Bortoni-Ricardo , professora na UnB, tem reunido alguns textos interessantes no seu site.

– O colega e amigo Rodrigo Gonçalves, professor na UFPR, também reuniu alguns textos no seu site.

Em tempo: Marcos Bagno e Evanildo Bechara foram entrevistados pela Folha Dirigida. Achei engraçado que o Bagno criticou a ABL e chamou o Bechara de conservador. A folha perguntou ao Bechara como ele se defende disso, e ele disse simplesmente que o que o Bagno defende em seus livros são ideias antigas no estudo da linguagem. Quer dizer, o seu argumento é desqualificar o atacante, não o ataque. Modestamente há opiniões bem contestáveis em tudo que o Bechara fala. Me estranha também que a entrevista que o Bechara concedeu seja bem maior que a do Bagno. O que também é estranho é ninguém falar de outros linguistas que defendem propostas similares às do prof. Bagno, e não são poucos. Daí fica parecendo que ele é um exército de um homem só.

Um trecho da entrevista do Bechara:

“O senhor conhece a proposta de reconhecimento de um “português brasileiro”, defendida pelo professor Marcos Bagno? A argumentação do professor da UnB procede? Por quê?

Monteiro Lobato dizia: “Assim como o português nasceu dos erros do Latim, o ‘brasileiro’ nascerá dos erros do português”. Ora, é degradante para um país nascer da miséria de outro. Certa vez, no Colégio Pedro II, o professor Hermes Parente Fortes escreveu uma tese para ingresso na instituição defendendo a existência de um “português brasileiro”. E o professor Oiticica (José Oiticica), catedrático de língua portuguesa, o examinou. O professor Oiticica disse a Hermes Parente Fortes: “eu vou passar a acreditar nessa tal de ‘língua brasileira’ quando o senhor traduzir para ‘brasileiro’ a oração do Pai Nosso. A característica de uma língua é a sua traduzibilidade. Se mudamos uma palavra por outra, isso não é tradução. O Espanhol é muito parecido com o Português.”

Ele sabe que a definição de ‘língua’ é mais política que linguística, não? Espero que sim, mas não é o que ele diz. Se a referência dele em mudança linguística é o Monteiro Lobato…Fica aí uma traduçãozinha do Pai nosso para o português brasileiro:

“Pai da gente que tá no céu, santificado seje o teu nome, venha até a gente o teu reino, seje feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia dá pra gente hoje, perdoa a gente pelas nossas ofensas, assim como a gente perdoa quem ofende a gente, não deixa a gente cair em tentação e livra a gente do mal. Amém.”

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