Apontamentos para um conto que não escreverei

Somos dois, um casal. Nos aventuramos em um relacionamento destinado ao fracasso, que ambos sabemos questão de tempo. (Frase comum, mudar). O nosso amor portátil, aquele carinho de bolso guardado, usado nos momentos cotidianos. Vivemos assim, iríamos viver assim, só não sabíamos até quando. Era como se estivéssemos contentes com a ideia que fazíamos do nosso amor, um amor diferente daquele real, aquele que tomava café todas as manhãs. Não que não nos amássemos. É possível que sim, mas creio que nenhum de nós tinha certeza…
A relação previsível dos casais burgueses, daqueles que vestem pijama para ir dormir, escovam os dentes juntos e acreditam em Deus. As conversas eram com frases soltas, rascunhos de um diálogo com notas dissonantes:
– Comprou pão?
– Amanhã não vou trabalhar.
– Tá bom. Vou pra academia à tarde.
– Já pagou a luz?
– Preciso de shampoo.
– Pra quê?
– Pra quê o quê?
– Deixa pra lá…
– …
– …
– Como assim?
– O quê? Do que você está falando?
– Esquece. Depois te falo.
Talvez a ilusão fosse o cálice noturno da comédia romântica, da novela das oito. No final, ficaríamos bem. Tínhamos um pacto. Isso nos bastava. A felicidade, essa vendida nos comerciais, nos bastava, não precisávamos de mais nada. Filhos, casa financiada, um carro novo. A vida estava se resumindo a trabalhar para pagar as novas necessidades. E isso estava bom. Só não sabíamos, até quando.

Estamos juntos há quanto tempo? Cinco anos? O quanto eu conheço ele? Quais são seus sonhos? Será isso a vida de casado? (Pensamentos dela, duas vozes, ambos são atores do próprio teatro que criaram, até quanto viverão nos papéis que criaram para si mesmos?)

Será que ela me ama? Por que ela insiste em me comparar com os seus primos, bem sucedidos, gerentes, diretores, juízes… como se ser alguém é ser um status, não dá apenas para ser, temos que ser alguém para ser comparado. Não gosto disso, como não gosto de várias coisas. Eu devia falar com ela, mas não falo. Não há o que falar. Ela não me entende. Não quero compreensão ou aceitação. Vai ver eu queira outra coisa, outra vida. Mas qual?

(Ambos são inseguros das suas escolhas. Mais ou menos felizes nas suas escolhas fortuitas. Não precisam mais do que tem para sobreviver. As escolhas dela o incomodam, suas ideias conservadoras, sua ânsia por ser alguém que não é. E se ela for assim mesmo, alguém que quer ser o que não é? Pode alguém ser assim, passar a vida querendo ser outra pessoa, querendo ter outra vida, outros sonhos, os sonhos dos outros, não aqueles que construiu para si? É possível sonhar algo que alguém já não sonhou em fazer, ter, construir? Alguém pode o culpar por desejar ter a vida de Henry Muller, embora, ele saiba pouco dela, além da sua literatura?)

– Quem é Helena?
– Trabalha comigo. Por quê?
– Te ligou. Pra você não esquecer de levar o livro. Que livro é esse?
– Ela me pediu um livro emprestado, as crônicas do Bob Dylan.
– …
(Há uma tensão que deveria estar evidente nas falas. Mas não sabemos. Haveria como construir uma tensão nas falas sem comentários? Sem dizer ao leitor, ei veja, ela está com ciúme. Talvez:)
– Uma tal de Helena te ligou? Quem é essa zinha?
– Trabalha comigo. O que que ela queria? Você conhece da festa do dia do trabalho da firma.
– Te ligou. Toda melosa: ‘pede pro João não esquecer o livro? Quero muito ler ele.’ Que livro é esse?
– Ela me pediu um livro emprestado, as crônicas do Bob Dylan. É o jeito dela, voz meio fanha, soa assim.
– Por que deu o nosso telefone pra ela?
– Não dei. Ela pegou com alguém da firma.
– Só me faltava essa… amigas da firma ligando pra cá agora.

(Ele não se sente minimamente atraído pela Helena. De fato, esse relacionamento seria improvável, mas ela insiste nos ciúmes improváveis).

(Epílogo: não há epílogo, no sentido clássico, poderíamos supor uma briga, uma separação, um final de filme, ela pega suas coisas e volta pra casa da mãe, ou o oposto, ele sai de casa e vai morar com um amigo – como isso soa ridículo. Gostaria de pensar em algo diferente, sem fim, como se entrássemos na estória com ela andando, e saíssemos dela sem saber que rumo tomou. Como quando conhecemos alguém em uma viagem de ônibus, fazemos parte da vida daquela pessoa por algumas horas, nos despedimos, e tudo que nos fica é a memória daquele acontecimento breve, e esquecível: por que banal? voluntário na sua necessidade de troca?).
(Nota: cortar adjetivos)

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