Os pronomes, a formatura e o linguista entendiado

Na sexta-feira passada participei da cerimônia de colação de grau dos cursos de história, letras e filosofia da FAFIUV. E enquanto estava lá embaixo daquela beca passando um baita calor percebi que duas pessoas usavam construções diferentes para cumprir o mesmo ato de fala, conceber o grau de licenciado. O falante A usava a expressão “Te concedo o grau de licenciado em x.” O falante B usava a expressão “Concedo-lhe o grau de licenciado em x.” Há várias questões interessantes nessa aparente simples diferença. Essas questões podem ser colocadas em dois blocos: as imanentes ao sistema e aquelas que relacionam o sistema com o social.

Do ponto de vista do sistema, na fala do falante A temos um caso de próclise (o pronome átono anteposto ao verbo), no B temos ênclise (o pronome átono posposto ao verbo). O barato do exemplo A é o falante estar usando uma forma inovadora e (aparentemente não estigmatizada) em uma situação discursiva altamente formal. Se vocês lembram, lá no capítulo da colocação pronominal, as gramáticas dizem que não se deve iniciar a oração com pronome átono. Se a gramática diz pra não fazer, é provável que os falantes façam isso, de outra forma não seria necessário tal proibição. Eu acho uma grande bobagem esse tipo de coisa (podem me chamar de insensível, mas não vejo diferença estética entre A ou B, e não, A não me dói o ouvido; a ênclise me dói o ouvido, porque não é português brasileiro, falado pelo menos). Ainda sobre o sistema, veja que temos duas formas em competição ‘lhe’ vs. ‘te’. Qual a diferença? ‘lhe’ é pronome que substitui os objetos indiretos (de segunda e terceira pessoas, plural e singular) e ‘te’ os objetos diretos de segunda pessoa do singular (‘tu’ e ‘você’, tendo a crer que os falantes de dialetos que tem o ‘você’ como segunda pessoa do discurso usam tanto o ‘te’ como o ‘você’ na posição de objeto direto; eu uso) . Para exemplificar, vejamos dois casos claros de uso desses pronomes. ‘amar’ é um verbo transitivo direto (não há preposição entre o verbo e seu complemento que exerce função de objeto), assim, para dizermos a uma segunda pessoa que a amamos, dizemos “Eu te amo” ou quem tem o ‘você’ como segunda pessoa gramatical diria, muito provavelmente, “Eu amo você” (acho que daria um estudo bacana isso). ‘dar’ é um verbo bitransitivo, tem dois complementos que exercem função de objeto, um direto e um indireto (que requer preposição ‘para’; o ‘give’ do inglês é parecido, embora se possa omitir a preposição em alguns casos; tem uma música do AC/DC chamada ‘givin’ the dog a bone’, tá no álbum Back in Black, 1980). Pois bem, para substituirmos o nome que ocupa a posição de objeto indireto, segundo os nossos gramáticos tradicionais, devemos usar ‘lhe’. Assim, na oração “Eu dei pra Maria um chocolatinho”, ao substituir o objeto indireto ‘pra Maria’, deveríamos usar o ‘lhe’: “Eu lhe dei um chocolatinho”. Na fala usamos “Eu dei pra ela um chocolatinho.” Se fosse uma segunda pessoa do singular: “Eu dei pra você um chocolatinho.” ou “Eu te dei um chocolatinho.” E aí chegamos na minha explicação: podemos usar o pronome átono ‘te’ mesmo com verbos intransitivos! (o ‘lhe’ está caindo em desuso na oralidade?) Por isso o falante A pode usar esse pronome com um verbo intransitivo como ‘conceder’: “Concedo à reclamada o período de … ” (exemplo da internet) A crase está ali porque temos uma preposição. Veja que sem a preposição a oração ficaria agramatical “*Eu concedo Maria o grau de licenciada em filosofia.” Não sei o que os tradicionalistas dizem sobre o tema, mas é provável que condenem o uso de pronome para objeto direto no lugar do indireto.

O lado sociológico da questão diz respeito ao fato de termos duas formas (aparentemente intercambiáveis) exercendo a mesma função gramatical. Um estudo dentro do paradigma variacionista procuraria explicações para esse fenômeno no social: escolaridade, idade, formalidade da situação, etc. A escolaridade não parece ser um fator decisivo, já que os dois falantes possuem grau universitário e suas idades não são tão diferentes. Claro, somente uma pesquisa estatística poderia confirmar essas afirmações. Uma rápida pesquisa no google mostra a diferença entre as duas formas: “te concedo” registra 190.000 resultados, enquanto “concedo-lhe” 181.000, “concedo-te” registra 160.000, e pasmem, “lhe concedo” registra 1.130.000! ocorrências (apenas nas páginas em português). Esse tipo de pesquisa pode ser enviesada, dado que o tipo de texto que temos na internet vai de posts em blogues escritos em linguagem informal até documentos oficiais de órgãos governamentais e escrita jornalística. Assim, fica difícil saber de onde vêm os dados. O interessante é a discrepância dos números. Os casos de próclise ultrapassam em muito os casos de ênclise, apesar de o número de ocorrências com o ‘lhe’ ainda ser maior que o uso do ‘te’, possivelmente porque estamos em um ambiente de escrita, mesmo que transitando entre o formal e o informal. Para afirmarmos que o ‘te’ está tomando o lugar do ‘lhe’ precisaríamos coletar dados de falantes de diferentes faixas etárias e verificar a ocorrência dessas formas. Se os mais novos usarem mais o ‘te’ que o ‘lhe’ com verbos intransitivos do que os mais velhos (e a curva no gráfico mostrar movimento ascendente conforme decai a idade), pode-se argumentar que temos mudança em progresso. Do contrário, o máximo que poderemos dizer é que se trata de um caso de ‘variação inerente’, isto é, as duas formas podem ser usadas intercambiavelmente, embora eu acredite que fatores como escolaridade e situação discursiva (formal vs. informal; escrita vs. fala; entre outros fatores) possam exercer influência decisiva na frequência das formas.

 

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