Planejando uma disciplina

Muito do sucesso de uma empreitada pedagógica se deve em função do planejamento (como quase tudo na vida). E planejar uma disciplina acadêmica que irá decorrer ao longo do ano não é tarefa das mais fáceis. Claro, quando chegamos na universidade temos programas pré-estabelecidos e nossa tarefa se resume, quando muito, a selecionar dentro da bibliografia sugerida por quem elaborou o programa quais textos iremos trabalhar ao longo do semestre ou do ano. Mas essas escolhas em geral são difíceis, porque na sua maioria os textos introdutórios que possuímos no Brasil são frutos de escolhas sempre tendenciosas, que deixam em descoberto áreas importantes, quando não passam batido por temas básicos, supondo uma falsa homogeneidade nos cursos de Letras pelo Brasil afora.

Aqui onde leciono, FAFIUV, a disciplina da Linguística possui uma carga horária pequena (72hrs anuais com aulas nos quatro anos do curso). Isso é muito pouco. Como comparação, na UFSC, as disciplinas da área de linguística têm 60hs/aula de carga horária por semestre. A linguística aqui tem 30-32h/a por semestre, uma aula na semana (2h/a), o que de fato é muito pouco. Isso se deve a uma grade que supõe que o núcleo do curso de Letras é a disciplina de Língua Portuguesa, organizada basicamente em torno da gramática e da produção e estudos textuais (se os acadêmicos saíssem da faculdade dominando a GT e sendo bons escritores já valeira a pena, mas não é isso o que ocorre, de fato é o contrário). Na verdade o curso de Letras deveria ser organizado em função da linguística e da literatura (teoria e literaturas brasileira, portuguesa e específicas das línguas). Em função dessa carga horária temos que organizar e selecionar tópicos importantes no estudo da linguagem: introdução aos estudos linguísticos, fonética/fonologia, morfologia, sintaxe, semântica/pragmática, aquisição de linguagem, sociolinguística, linguística textual e análise de discurso. Na realidade, temos 30hrs para dar uma disciplina como sintaxe, que tomaria pelo menos o dobro para ser ministrada de forma mínima. Aí reside o dilema.

O dilema está nas escolhas: que tipo de informação é importante? Será que a escolha do material didático não revela um preconceito teórico da minha parte? Privilegiar um tópico de estudo poderia excluir outro que poderia ser mais relevante para a prática futura desse profissional? Será que os textos são acessíveis aos alunos? Quanto tempo levarei para explicar a dicotomia língua/fala? Veja que se eu passar 3 dias falando de Saussure, são 6hs/a, numa carga horária de 30-32, isso é bastante tempo. Daí advém o dilema da escolha: será que eles sabendo pelo menos isso está bom? Será que não estarei negando a eles um conhecimento que poderia ser passado de maneira superficial, mas que pudesse instigar neles o desejo de se aprofundar, mesmo que por conta própria? No momento prefiro a última opção, ressalvando que, por exemplo, a noção de valor é fundamental para entender o funcionamento da fonologia e da morfologia (e.g.: o plural é o não singular e o singular é a ausência do plural), pelo menos no paradigma estruturalista.

A grande queixa dos professores é que os alunos, a cada ano, chegam sabendo menos na universidade. Não gosto desse discurso derrotista. No fundo, a culpa é de quem forma professores também (não só do estado, da escola ou do professor preguiçoso). Se estamos recebendo alunos fracos é porque os professores deles são fracos ou despreparados. Acredito no que o Noam Chomsky disse no Managua Lectures, o sucesso do ensino depende muito mais do professor saber despertar no aluno a curiosidade, gostar de aprender o tópico (qualquer que seja ele). De resto, opções pedagógicas ou teóricas são o que menos importa. Se o aluno tiver curiosidade ele vai atrás e vai descobrir por si mesmo as coisas. Sabe aquele ditado: time bom, nem técnico ruim consegue estragar? Acho que aluno bom, nem professor ruim consegue estragar. Só que o problema são aqueles que precisam de monitoramento e atenção. Esses são estragados pelos professores ruins. No final das contas, penso que se queremos acadêmicos melhores, está na hora de formarmos professores melhores. E isso passa necessariamente por uma reflexão sobre que tipo de professores estamos formando, que tipo de conhecimento esperamos que eles tenham. Não é preciso saber teoria gerativa para ser um bom professor de língua portuguesa. Mas entre um professor que conhece o funcionamento da língua (da fonética ao discurso) e um que sabe mal e porcamente a GT, eu fico sempre com o linguista. Um linguista rudimentar sempre será capaz de ler e entender facilmente qualquer GT escolar, já o oposto não ocorre.

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2 comentários sobre “Planejando uma disciplina

  1. “Um linguista rudimentar sempre será capaz de ler e entender facilmente qualquer GT escolar, já o oposto não ocorre.”
    Também concordo. Uma GT escolar não é capaz de entender um linguista!!!!!!!!! =p

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