As novelas e o lugar comum da narrativa

É impressionante como as novelas globais repetem o mesmo esquema narrativo. Logo nos primeiros capítulos fica claro quem é o casal principal (em geral, amor à primeira vista, não sabem nada um sobre o outro, mas já se amam perdidamente), o vilão master e seus comparsas e os coadjuvantes (em geral personagens sem história, sem parentes, não sabemos se trabalham e o que de fato fazem ali além de preencher buracos). Como li em algum lugar, parece que o tempo dos personagens dúbios se foi. Não há grandes discussões morais, além das lições de cidadania com drogados, psicóticos e pessoas com deficiência física. Os personagens são redondos, previsíveis. O problema se forma: como o casal vai superar as dificuldades para ficar junto? Será que o vilão conseguirá levar a termo seu plano: uma vingança, ficar rico com algum golpe, etc. Parece que se intercalam novelas do tipo ‘vamos retratar a classe média’ com novelas ‘vamos caricaturar algum povo’. Ciganos, árabes, italianos (esses parecem recorrer constantemente), índios (para mostrar suas lendas e superstições), pouco sabemos desses índios, sua tribo, que língua falam, etc, gregos, citando só os que me lembro agora. Há sempre cenas do herói pensativo andando na multidão ou em lugares desertos, como um campo, ele é um ser solitário, triste, está numa jornada em busca da felicidade (que se resume a recuperar a mulher amada ou acabar com a raça do vilão). Você pode acrescentar nessa lista o pobre malandro, a empregada que dorme com o patrão, a madame mal casada, filhos de quarenta anos que ainda moram com os pais, um bon vivant. Não há o que interpretar, tudo nos é dado já interpretado: esse é o galã (todos têm o mesmo biotipo), essa é a mocinha (também nos seus trinta anos e ainda mora com a mãe, belíssima, cheirosa, incapaz de praticar algum ato discutível); tem o tiozinho ou o avô trapalhão (há que se ter algum humor também). É essencial uma lição de moral: o vilão morre em um acidente trágico ou é preso e condenado (às vezes pelo crime errado, porque o outro vilão armou para ele para ficar com toda a grana: um vilão sempre irá trapacear o outro). Há pseudo-ciência, charlatanismo, espiritualidade, macumba, alquimia e outras pirações. Aleijados que voltam a andar por milagre, cânceres curados com a imposição das mãos ou espíritos que brincam com a vida dos terrenos, há uma missão a ser cumprida (se não terminaram a missão por que morreram? A gente não morre quando a missão acaba?) Quando o ator coadjuvante é bom seu personagem se destaca dos demais, isso vira desculpa para termos mais cenas com ele(a) e deixarmos de lado um pouco o andamento da trama principal que segue em banho-maria e se resolverá em poucas cenas no último capítulo (o seriado Dexter tem usado muito esse recurso). É como se a narrativa seguisse uma linha reta, não há uma ascensão crescente até o climax, e de repente há o clímax e o final, abruptos e com um cena de casamento ou festa, afinal, estão todos felizes. Afinal, é assim que tem que funcionar nos contos de fadas.

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