Tudo pode dar certo (Woody Allen, 2010)

Ver um filme do Woody Allen para mim é sempre um aprendizado. Vai ver que é porque um pouco da minha personalidade foi moldada a partir dos seus personagens. Gosto da cidade grande mas não sou neurótico. Sou um pseudo-intelectual metido a besta, gosto de cinema e jazz, culpa, em parte do Woody Allen. Meu ateísmo e ceticismo são frutos do meu espírito científico mesmo. Vamos ao filme.  Boris (Larry David) é um físico aposentado e divorciado que passa os seus dias ensinando xadrez para crianças e batendo papo com os amigos. Pessimista, ateu e neurótico seu lema de vida é ‘whatever works’, o ‘tudo pode dar certo do filme’, o que eu traduziria por ‘o que quer que dê certo’, que acredito estar mais próximo do que a expressão inglesa significa no filme. Semântica a parte, o que me deslumbrou no filme foi tanto a atuação de David quanto o roteiro sempre perfeito de Allen (além da Evan Rachel Wood, no papel de Melody, a jovem que casa com Boris, estar graciosa e encantadora). Diálogos afiados, tiradas oportunas e um brilhante jogo de cena. Boris conversa com o espectador em certos momentos do filme, como se de uma terceira pessoa ele passasse repentinamente a primeira, mudando o foco narrativo com naturalidade. Talvez aí esteja a grande jogada do filme. Boris não acredita em Deus e acha que a vida é uma longa espera até a morte, a vida não possui sentido. Daí o seu lema, que no final das contas é um conselho: viva a sua vida da melhor maneira possível e não se preocupe com problemas supérfluos. Esse narrador, em primeira pessoa é uma forma de dizer: ei, vejam, o onisciente da história aqui sou eu. Claro, a ironia é que os melhores momentos da narrativa são frutos do acaso e da sorte. Boris conhece uma jovem com quem se casa, e esse acontecimento leva ele a conhecer uma série de pessoas novas. A vida delas muda por conhecer ele, ele não. Se há uma moral no filme é essa: já que a vida é sem sentido mesmo, e estamos de mãos atadas frente ao acaso, não há porque se preocupar com destino. O amor, no final das contas, é também fruto do acaso para Boris, o que também não deixa de ser verdade em relação ao que acontece com os outros personagens e como o próprio. É por pura sorte e coincidência que as pessoas se encontram e se apaixonam, não há outra forma de explicar isso para um racionalista que não acredita em destino.

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2 comentários sobre “Tudo pode dar certo (Woody Allen, 2010)

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